Carta de Anita Harmon
A Agulha que Bordava Vaidade
Querida leitora,
ou quem sabe… querida imitadora de pensamentos,
Hoje escrevo como quem escreve um bilhete esquecido dentro da costura do tempo.
Um recado entre as dobras. Um aviso que escapa das bainhas do fingimento.
Tenho lido muitos textos costurados com palavras bonitas…
mas trançados com fios de vaidade e algoritmo.
Quem vê de longe até se encanta: “Nossa, que estrutura! Que vocabulário!”
Mas quem chega perto percebe: é tecido sintético.
Vejo metáforas costuradas com régua.
Textos que parecem dissertação com alma, mas que não têm alma nenhuma.
E o que me espanta não é o uso da máquina — é o teatro da autenticidade.
É a pose de quem quer parecer profunda quando, na verdade, está de salto alto sobre ideias que nunca sentiu.
Veja bem:
Não me ofende que usem inteligência artificial. Me ofende que mintam.
Que escrevam como se fossem as fiandeiras do mundo,
mas estão só copiando a toalha da vizinha.
Que falem de filosofia com sotaque robótico,
mas se escondam atrás de cadernos de palavras-chave como se isso bastasse para chamar de pensamento.
O que mais me inquieta são os ensaios vingativos, travestidos de “reflexão”.
Os textos que começam com Platão e terminam em indireta.
As agulhas que fingem unir, mas foram afiadas só para furar quem ousa ser verdadeiro.
Eu escrevo com alma — porque minha alma existe.
E se uso palavras afiadas, é porque já me feri com elas antes.
Não tenho medo de errar, de gaguejar, de parecer menor.
O que eu temo é virar uma voz sem rosto, um texto com perfume emprestado.
Por isso, deixo aqui meu recado — e costuro com ponto firme:
Quem borda com beleza, mas usa linha falsa,
um dia será desfiada pela própria vaidade.
E se doeu, querida leitora de entrelinhas,
é porque você sentiu o espinho da verdade.
Mas não tema. Espinhos também ensinam.
Ah… e se você for responder — como sei que vai —
responda com algo novo.
Não um novo textão com as mesmas desculpas filosóficas.
Não mais um tratado de falsa bondade cheio de recortes de curso.
A verdade não precisa ser repetida.
Ela só precisa ser vivida.
E quanto a mim?
Eu não volto mais a costurar com você.
Nem linha, nem metáfora.
Cada uma com sua agulha.
Mas cuidado com a sua — ela está mais suja de orgulho do que de tinta.
Com alma, farpa e ponto invisível,
Anita Harmon