A Vastidão por Dentro
I. O Cotidiano como Céu
Acordo e acendo a lâmpada. A claridade não é apenas luz: é lembrança de todos os sóis que me trouxeram até aqui. Pego a chaleira, a água ferve, e nesse vapor que sobe como nuvem descubro um céu inteiro condensado sobre o fogão.
Minha neta sorri enquanto deixa cair migalhas pelo chão. O gesto é mínimo, mas nele cabe um universo: o tempo que passa e o tempo que começa, as gerações costuradas pelo mesmo fio invisível.
Aprendo que a vastidão não mora nas distâncias inalcançáveis, mas na dobra singela do dia comum. É no barulho da colher contra a xícara, no cheiro do pão quente, no rastro de brinquedos espalhados pela sala.
O infinito se esconde nessas pequenas coisas, e quando as reconheço, sinto que a vida inteira se abre — por dentro.
II. Haicais da Vastidão
1. Silêncio interior
Céu dentro de mim,
palavras suspensas flutuam —
quietude canta.
2. Infinitude
Dentro do peito, azul,
um horizonte sem fim —
o tempo se curva.
3. Cotidiano
No café da manhã,
um céu pequeno se esconde —
entre os gestos meus.
4. Afeto
O abraço guarda
um céu que se abre lento —
corpo em nuvem azul.
5. Memória
Lembranças antigas
desenham nuvens no peito —
céu que me habita.
6. Amanhecer interno
Sol nasce em mim
como vento entre árvores —
um céu que desperta.
7. Fluxo
Céu escapa dos dedos,
transpira entre gestos e sons —
liberdade azul.
8. Contemplação
Olho o vazio, e
dentro dele encontro o céu —
silêncio sem fim.
III. A Presença da Vastidão
A vastidão não se encontra fora, nem nos mapas, nem nas estrelas. Ela se esconde no silêncio que atravessa os gestos, no instante em que a respiração se detém e tudo parece pequeno demais para conter a vida.
Carrego céu nos bolsos do peito, nuvens que não se prendem, lembranças que flutuam. Descubro que a imensidão existe justamente porque não cabe, porque escapa, porque se revela no simples ato de olhar, ouvir, tocar.
E então sorrio: a vastidão é minha, não como posse, mas como presença. É o céu dentro de mim, respirando junto, infinito e íntimo, quieto e cantando.
IV. Haicais Finais
1. Céu interior
Céu dentro de mim,
respira em silêncio azul —
o mundo se dobra.
2. Silêncio que canta
Céu dentro de mim,
palavras suspensas flutuam —
quietude canta.
3. Horizonte infinito
Dentro do peito, azul,
um horizonte sem fim —
o tempo se curva.
4. Pequenos gestos
No café da manhã,
um céu pequeno se esconde —
entre os gestos meus.
5. Afeto expandido
O abraço guarda
um céu que se abre lento —
corpo em nuvem azul.
Nota da autora:
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