Carta de Anita Harmon
Interior do Japão, estação do verde desperto
Querido alguém que me lê,
Talvez o mundo aí fora imagine o Japão como sinônimo de neon, trens velozes e multidões apressadas.
Mas aqui onde vivo, no interior, o tempo respira devagar.
E quem comanda o relógio é a natureza.
Tenho arrozais ao redor de casa.
Eles se espraiam como tapetes verdes entre casas, estradas e até construções modernas.
Aqui, o concreto e o musgo convivem lado a lado —
e a arquitetura antiga ainda sussurra sabedorias de madeira e papel.
Todos os dias, posso ver uma garça branca no meio do arrozal.
Às vezes duas, três.
Elas caminham com a elegância dos que sabem esperar.
Se alimentam dos bichinhos que vivem entre as hastes —
para o agricultor, pragas; para mim, pura dança da vida.
E os tanukis…
Ah, os tanukis!
Rolinhos peludos que correm pelos arrozais ao anoitecer.
Eles visitam nossas casas, como se quisessem contar histórias antigas,
ou pedir um restinho de arroz com ternura.
Também há os macacos.
Famílias inteiras.
Sim, famílias — vinte, trinta de uma vez —
atravessam avenidas como quem atravessa o quintal.
Vivem nas montanhas, mas caminham entre nós.
E ninguém os espanta.
Há um respeito ancestral entre bicho e gente por aqui.
Os corvos, esses senhores de preto, são reis das calçadas.
Atravessam a rua com passinhos curtos e saltitantes.
E temos que parar para eles — não porque somos obrigados,
mas porque é assim que se vive em paz: com pausas para o voo do outro.
Eles são tão inteligentes, esses corvos.
Nos olham com um olho só, de lado, avaliando o mundo.
Admiráveis criaturas.
E há tantas pombas.
E tantas garças.
E o som do vento entre os momijis.
E as folhas que dançam em vermelho no inverno.
Aqui, até o silêncio é habitado.
E quando quero sentir o sal nos cabelos, vou até o mar.
Apenas quatro quilômetros me separam da praia.
Caminho pela areia, colho conchinhas do mar, deixo os pés afundarem.
E às vezes, no fim da tarde, a lua cheia se aproxima do horizonte
como se quisesse mergulhar no Pacífico.
E eu fico ali, calada, olhando.
Há lugares lindos como o Ferro Boat,
de onde saem barquinhos rumo a Nagoya, cortando as águas.
Ali, eu já passei os buwarcos —
que é como gosto de chamar os dias em que tudo silencia dentro de mim.
Viver aqui é isso:
ver o verde como quem vê um milagre cotidiano.
E aprender a dar pausas.
Porque há tanta beleza neste país,
que caminhar depressa seria quase uma forma de cegueira.
Com os pés descalços no chão e o coração cheio de bichos e luas,
Anita Harmon
MOMIJI

Tanuki

imagens : Google.
Nota da autora:
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