Ter câncer não nos torna especiais,
nem diferentes.
Somos simplesmente vida,
como todo mundo.
O tratamento oncológico é um caminho sem atalhos. Parece não ter fim. À distância, pode soar como rotina estabilizada, menos turbulenta do que nos primeiros anos. Mas só quem percorre essa estrada conhece o peso das suas curvas e silêncios.
Cada exame carrega um susto. Cada laudo abre frestas de angústia. É viver com o coração em vigília, sabendo que a paz de antes não volta mais. O “normal” que existia antes do diagnóstico tornou-se terra estrangeira, sem possibilidade de retorno.
Há sempre um fantasma à espreita — o da recidiva. Invisível, mas presente. Quem nunca habitou esse território não entende sua sombra.
E a dor do câncer… essa é indelével. Não se apaga. Às vezes, o carinho chega em palavras: “você é forte”, “você dá conta”. Confortam, sim, mas também nos roubam algo — porque sorrimos por fora, enquanto por dentro gritamos. Não somos feitos de aço. Somos de carne, de medo e de esperança.
Escolhemos lutar, não por sermos heróis, mas porque queremos viver. Aprendemos a caminhar entre incertezas, sustentando um dia de cada vez.
E jamais seremos os mesmos. Há marcas invisíveis que nos transformam em silêncio, como cicatrizes na alma que não se explicam — apenas se carregam.
Carrego feridas que não se veem, mas que me refazem a cada dia.
Não apenas sobrevivo ao câncer: eu me reinvento nele, e apesar dele.
A minha enfermidade não é espetáculo,
nem instrumento de visibilidade.
É apenas parte da minha travessia.
Agradeço de coração as orações e as boas intenções,
mas há um certo desconforto quando a minha dor
é usada como recurso para gerar engajamento.
Mesmo com boas intenções, há nisso uma violação silenciosa —
uma apropriação do que é profundamente pessoal.
Nunca usei a minha doença para visibilidade,
nem me fiz de vítima.
Falo porque acredito que, ao nomear o que nos fere, a dor se torna ponte —não vitrine.
Os efeitos do tratamento
Entre o medo e a esperança, há também os efeitos colaterais — alguns esperados, outros que nos surpreendem e nos atravessam como golpes invisíveis.
Meu protocolo inicial previa doze quimioterapias semanais. O uso de esteroides e corticoides em altas doses foi suficiente para despertar uma nova doença em mim: a diabetes autoimune. De repente, não era apenas o câncer que eu precisava enfrentar.
A combinação de Keytruda + Paclitaxel + Carboplatina mostrou-se poderosa: consegui uma redução de 98% do tumor, já na metade do caminho. Uma vitória imensa. Mas a mesma força que reduziu o tumor feriu meu fígado e meu pâncreas. O tratamento precisou ser interrompido por três meses. Três meses de espera. Três meses de medo da recidiva, da perda do terreno conquistado.
A ressonância trouxe alívio: o tumor não havia crescido. E assim iniciei um novo ciclo — a chamada quimioterapia vermelha. Internação para colocação do catéter, medicações para conter os vômitos, injeções para aumentar a imunidade. Cada detalhe é uma batalha.
Voltei para casa, mas sete dias depois a febre alta me levou de volta ao hospital. Queda drástica dos leucócitos, isolamento total, visitas restritas, antibióticos, exames e litros de soro. Uma semana inteira de luta em silêncio, cercada por cuidados.
Hoje, retorno para casa mais uma vez. No dia 16/10, outra quimioterapia. O psicológico precisa ser firme, porque é um campo minado: cada passo pode acender medos, mas também acender esperanças.
E sigo assim — entre o peso do tratamento e a leveza de acreditar. Um dia de cada vez. Porque viver é sempre escolha, e eu escolho continuar.
O câncer não tirou minha beleza. Pelo contrário: cada fase tem sua própria luz. Mesmo sem cabelo, tudo renasce. Envelhecer faz parte da vida, e cada ruga, cada mudança física, é marca de história, coragem e vida vivida.

O câncer não me define.
Me atravessa.
E ainda assim —
eu continuo sendo vida.
SOL