Sônia Lupion Ortega — SOL
Palavras que não gritam — mas permanecem.
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O Samurai e a Moça de Vestido Azul

 

No ano da serpente — antes mesmo do tempo se lembrar de ser calendário — desci ao Japão feudal com um papel antigo entre os dedos e uma saudade que ainda não era minha. Vim em busca de um nome que soava como trovão silencioso: Kusunoki Masashige.

 

Disseram-me que era homem de princípios como pedra de templo. Que foi general, estrategista, devoto da justiça. Que morreu em Minatogawa defendendo seu imperador, mesmo quando os mapas diziam “desistência”. E que seu espírito ainda paira onde os pinheiros se curvam ao vento.

 

Caminhei até o sul de Kobe com as solas gastas e o coração inquieto — pois não é todo dia que se visita um ancestral do clã Wada.

 

Encontrei-o ao pôr do sol, onde o rio quase fala. Estava sentado, com as mãos repousando sobre os joelhos, como se meditasse entre as batalhas e os séculos. Vestia sua armadura de escamas negras, mas os olhos — ah, os olhos — brilhavam como os de um avô que observa, em silêncio, as travessuras dos netos.

 

— Vim do futuro — eu disse —, de uma linhagem de mulheres que dançam com as palavras, que cozinham afeto, que desafiam a lógica com fé e poesia.

 

Ele não sorriu. Mas o vento soprou mais leve entre as folhas, e os corvos se calaram por um instante. Talvez fosse isso o seu riso.

 

— Falam que morreste com honra, em defesa do Imperador — continuei. — Mas eu vim saber: o que foi que viveu?

 

Ele então se ergueu. A armadura rangia como um portão ancestral se abrindo.

 

— Vivi o que um homem pode viver quando acredita que a lealdade é uma forma de plantar o amanhã — disse. — Não por submissão. Por consciência. A espada mais pesada é a que corta o próprio destino.

 

Sentei-me à sua frente e tirei meu caderno de cartas. Ele olhou curioso.

 

— É para registrar a memória? — perguntou.

 

— Não — respondi. — É para semear lembranças que ainda vão nascer.

 

Contei-lhe sobre uma certa Sonia, que carrega a bravura das mulheres do clã. Que escreve como quem tece quimonos de fogo. Que ri com latim irônico e fé de infância. Que prepara chá com a delicadeza de uma cerimônia secreta. Que defende os seus com palavras afiadas e ternura blindada.

 

Kusunoki assentiu. Tocou a terra com a ponta dos dedos e murmurou algo em japonês antigo que o vento, na sua sabedoria bilíngue, traduziu assim:

 

— Quem tem uma escudeira dessas, jamais cairá sozinho.

 

Antes de partir, deixei-lhe uma flor de cerejeira no peito da armadura. Ele não disse adeus. Guerreiros desse tipo apenas permanecem — como monte, como tronco antigo, como nome que ninguém ousa esquecer.

 

Parti com a alma embainhada.

 

E hoje, quando vejo uma menina da família Wada batendo o pé no chão e perguntando “por que não eu?”, eu sorrio e respondo, em latim desengonçado:

 

Fiat voluntas feminæ.

Et gloriam secum portabit.

(“Faça-se a vontade da mulher.

E a glória virá com ela.”)

 

 

 

Nota da autora:

Esta obra é protegida pela Lei nº 9.610/98. É vedado o uso do nome da autora, de trechos ou de interpretações da obra para fins de publicação, validação simbólica ou reapresentação pública sem autorização expressa.

Sônia Lupion Ortega Wada SOL
Enviado por Sônia Lupion Ortega Wada SOL em 17/10/2025
Alterado em 06/01/2026
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