Carta ao amigo que mora no tempo
Querido amigo,
Escrevo de um tempo que talvez não seja o mesmo que o seu.
Aqui, o dia já nasceu — aí, talvez ainda seja noite.
Entre nós, há um silêncio de horas,
mas é nesse intervalo que o afeto repousa.
Às vezes penso que o tempo é apenas
uma ponte invisível —
feita de lembranças e esperas.
Enquanto você adormece, eu caminho pelas manhãs, e me pergunto se o vento que toca meu rosto é o mesmo que embala o seu sono.
Há quem diga que o tempo corre.
Mas, se a gente presta atenção, ele apenas respira.
O relógio faz barulho — o tempo, não.
Ele se esconde nas pausas, no intervalo entre uma palavra e outra, no instante em que dois corações se reconhecem, ainda que em fusos diferentes.
Sabe, o tempo poético não sabe contar segundos.
Ele dobra o ontem dentro do agora,
mistura lembranças com promessas
e transforma distância em presença.
Talvez o tempo verdadeiro seja esse:
o que acontece quando trocamos mensagens,
quando as palavras se encontram por um instante e tudo — o antes e o depois — deixa de importar.
Gosto de pensar que o tempo não nos separa.
Apenas cuida dos nossos silêncios.
Talvez ele exista só para que possamos sentir saudade, e, ao senti-la, lembrar que a amizade é o único relógio que não erra as horas.
Aqui, já é amanhã.
Aí, ainda é noite.
Mas quando penso em você,
o tempo se curva —
e o agora nos pertence.
Com ternura e um punhado de luz,
Sônia Lupion Ortega Wada 🌸
Nota da autora:
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