Para Hull,
Flor Eterna de Cerejeira
Há pessoas que passam por nossas vidas como estações inteiras — Hull foi primavera, verão, outono e inverno em uma só alma.
Tinha nos gestos o abrigo de uma mãe, nas palavras o sopro de uma poetisa, e na presença o encanto sereno de quem nasceu para cuidar. Mas também era risada contagiante, espírito livre, alegria que iluminava qualquer ambiente e coragem de quem não se curva diante de nada.

Hull escrevia cordéis como quem brinca com a vida, transformando rima em canto, palavras em festa, e cada verso em ensinamento. Empoderada, elegante e dona de uma personalidade forte e vibrante, sabia fazer do cotidiano um palco de poesia, onde até a dor se transformava em aprendizado e riso.
Venceu o câncer com coragem de guerreira e partiu levada por um tempo que não soube compreender sua doçura. Mas não partiu por completo — ficou em mim, no perfume da cerejeira, nas palavras que ainda me visitam, no jeito como o amor dela me ensinou a ser mais humana.
Ulli era verso vivo. Sabia transformar dor em canto, despedida em esperança. Chamava-me de flor de cerejeira, e hoje percebo: era ela quem florescia em mim.
Tinha um talento especial com literatura infantil. Insisti muitas vezes para que escrevesse um livro, e ela relutava, sorrindo com aquela doçura única. Mesmo sem páginas impressas, suas histórias ganharam vida em mim — contos que inventava com seu olhar, palavras que voavam leves, ensinando amor, coragem e fantasia. Cada lembrança é agora um livro silencioso, onde Hull é autora e heroína, e eu, eternamente, sua leitora encantada.
Sinto saudades, muitas. Mas aprendi que o amor não termina com o corpo — ele continua, leve, feito pétala, espalhando-se pelo tempo.
Hull, minha mamma veinha,
que o céu te embale com a mesma canção de ninar que um dia escreveste para mim.
E que cada flor que se abre em março ou abril traga teu sorriso de volta, por um instante — só o bastante para o meu coração se lembrar que o amor não morre.
Ela foi dessas almas raras que espalham beleza até depois da partida. Alegre, viva, poderosa, poetisa de cordel, amiga e mãe. Hull foi tudo isso, e muito mais.

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Linda flor de cerejeira,
que gera outra flor,
nesta terça-feira
reafirmo-te meu amor.
Boneca de porcelana,
encanto dos olhos meus,
com fio de filigrana
desenhou-se nos teus.
És poeta, mãe, amiga,
vim aqui pra ti ninar,
enquanto dormes, querida,
até te ver despertar.
Tu que vives no futuro,
difícil de se explicar,
um bom dia eu te auguro
com esta canção de ninar.
Beijos da mamma, veinha,
que a eternidade possa guardar
o teu riso, teu verso,
e o teu amor a nos embalar.
Hull de La Fuente