Epígrafe
“Quando a palavra de alguém é usada sem consentimento,
o silêncio deixa de ser prudência e vira necessidade de proteção.”
Meus textos e meu nome seguiram aparecendo em páginas alheias sem minha autorização.
Por esse motivo — e para resguardar meus direitos — informo que todas as questões relacionadas a este episódio já foram encaminhadas às autoridades competentes, conforme prevê a legislação.
Não farei mais discussões públicas sobre o assunto.
A Voz Que Me Pertence
Há textos que escrevo como quem respira fundo depois de um dia difícil.
São palavras que não escolho: elas me escolhem.
Nascem de uma fresta, de um cheiro antigo, de uma cicatriz ainda quente.
E quando chegam, chegam inteiras — tão minhas que quase parecem pulsar.
É por isso que sempre me surpreendo quando alguém tenta entrar na casa dessas palavras sem bater na porta.
Vão pegando uma cadeira daqui, uma lembrança dali, um título acolá…
E constroem, com esse material íntimo, um texto que não me reconhece.
Um texto que carrega meu nome na capa, mas não carrega minha alma dentro.
Chamam de “interação”.
Eu chamo de apropriação suave — aquela que vem com sorriso, mas deixa arranhão.
É curioso como alguns acham que poesia é praça pública, onde qualquer um pode subir e discursar em cima do banco que você estava sentada um minuto antes.
Mas poesia, para mim, não é praça.
É casa.
É corpo.
É quarto iluminado por uma luz que só eu sei acender.
E se há poetas que gostam do diálogo — que recebem visitas, celebram encontros e misturam suas vozes — eu respeito e admiro.
Mas eu não sou assim.
Não com tudo.
Não com o que é sagrado.
Meus textos têm dono.
Não por vaidade, mas por origem.
Há poemas meus que nasceram de perdas, de amores que ainda doem, de memórias que só eu carreguei no colo.E quando alguém usa meu nome para construir outro poema, como se estivéssemos brincando de parceria literária que eu jamais aceitei… sinto como se abrissem minha gaveta sem permissão.




COMENTÁRIO DO PROFESSOR EDUARDO NOGUEIRA FILHO
Como leitor antigo da plataforma, sinto que preciso registrar algo com clareza. O que aconteceu aqui não é apenas um mal-entendido.
É o uso indevido do nome de uma escritora para gerar impacto emocional.
1. O nome da autora foi usado sem autorização. Em texto religioso/devocional, com insinuações de “milagre” e “cura”, que não correspondem à realidade dela e nem à sua vontade. Isso ultrapassa qualquer noção de respeito.
2. A entrevista dada foi usada de forma oportunista. O foco da entrevista, conduzida recentemente, concentrou-se quase exclusivamente na doença da autora — explorando justamente o que ela tem vivido com tanta delicadeza. O aumento repentino de leituras não é coincidência. Quando alguém que nunca aparece entre os mais lidos, de repente, ganha grande visibilidade após publicar um texto envolvendo doença grave, fé e comoção… não estamos falando de fé.
E logo depois, esse mesmo tema foi reaproveitado em textos religiosos, como se sua história pessoal fosse um recurso literário público.
Aqui não estamos falando de fé. Estamos falando de estratégia — e uma estratégia construída às custas da história de outra pessoa.
3. Há um padrão muito conhecido nisso. Usa-se uma vivência sensível, acrescenta-se religiosidade sem consentimento, cria-se uma narrativa de comoção e, quando a pessoa coloca limites, surgem respostas atravessadas ou defensivas. Isso não tem nada a ver com espiritualidade. É sobre visibilidade.
4. Sonia fez exatamente o que uma pessoa correta faria. Ela colocou limites. Pediu a retirada do nome. Corrigiu interpretações falsas. E deixou claro que sua história não é material de uso para terceiros. Isso é ética. Isso é dignidade. Isso é proteção.
Ela segue escrevendo — porque sua palavra é dela. E ninguém tem o direito de transformá-la em instrumento de comoção ou divulgação devocional. Respeito é simples: basta não usar o que não lhe pertence.
— Eduardo Nogueira Filho — crítico literário e professor de Literatura Brasileira (USP).
Resposta ao comentário de Eduardo Nogueira Filho
Eduardo, agradeço profundamente a lucidez das suas palavras.
Quero registrar, com clareza, de onde nasceu o meu desconforto.
Tudo começou quando meu nome foi colocado — sem minha permissão — em listas públicas de oração. Não é apenas sobre fé; é sobre exposição. É estranho ver minha saúde, meu corpo e minha trajetória tornarem-se assunto de desconhecidos. Eu não pedi isso, e não reconheço essa narrativa como minha.
Ser inserida repetidamente em listas de doentes cria uma imagem que não corresponde à forma como vivo meu tratamento. Eu não me enxergo como milagre, nem como símbolo de cura, nem como personagem devocional. Minha espiritualidade é íntima, silenciosa, e eu a preservo.
Receber orações públicas de desconhecidos, todos os dias, não foi acolhedor — foi opressor.
Porque reforça a doença constantemente, reduz a pessoa ao diagnóstico, cria plateia para o sofrimento e impõe uma religiosidade que não pedi.
E tudo isso partindo de quem não tinha a menor intimidade comigo.
Em seguida, um poema meu — pessoal, íntimo — foi usado intertextualmente, também sem autorização. Nesse momento, fiz o que considero correto: entrei em contato por e-mail com a autora, Esther, expliquei meu desconforto, pedi a retirada do meu nome das listas de oração e pedi que meu poema não fosse mais utilizado daquela maneira. Ela respondeu com desculpas, e por um instante acreditei que o assunto estivesse encerrado.
Mas não estava.
Pouco tempo depois, meu nome voltou a aparecer — agora associado a “milagre”, “cura”, e a uma narrativa religiosa que não corresponde ao meu processo. E isso aconteceu mesmo depois de eu ter pedido, com clareza e respeito, que meu nome não fosse usado dessa forma.
A partir desse ponto, tornou-se evidente que não era acolhimento — era instrumentalização. Meu tratamento, minha vulnerabilidade, minha história e até minha escrita estavam sendo utilizados como recursos literário-devocionais por alguém que eu sequer conheço.
E isso ultrapassa qualquer noção de respeito.
Colocar limites não é agressão.
É proteção: da minha privacidade, da minha identidade, da minha maneira de viver o tratamento e da minha espiritualidade, que é minha, silenciosa e sem plateia.
Obrigada, Eduardo, por enxergar isso e por trazer clareza ao que eu estava tentando expressar.