Carta de Anita Harmon —
Olhares Acesos e Queijos Derretidos
Epígrafe:
Às mulheres maravilhosas que despertam,
criam coragem e
mudam a história de suas vidas —
que chutam o pau da barraca.
Hoje de manhã ela acordou e foi até a cozinha, ainda sonolenta, atrás de café.
E lá estava ele:
um estranho com cara de madrugada mal dormida, cabelo seboso, desgrenhado, parecendo que brigou com o travesseiro e perdeu.
Ela olhou. Ele olhou.
E seu estômago fez um giro digno de ginástica olímpica.
Os quartos separados há mais de dez anos eram quase um aviso luminoso:
“Cada um no seu quadrado emocional, por favor.”
Mas hoje teve um detalhe extra.
Quando ele a viu entrar na cozinha, lançou-lhe um olhar aceso, quase vivo demais praquela hora da manhã.
Como se, de repente, ela fosse interessante.
Como se uma fagulha tivesse surgido ali, do nada.
E seu pensamento, rápido como sempre, respondeu:
“Por que ela não acende pra você?”
Pausa dramática.
“Ah, é mesmo… deixe-me pensar.”
Às cinco da manhã ela já tinha vivido meio dia.
Café pronto.
Marmitas alinhadas.
Roupa lavada.
Família desperta.
E ela mesma… ainda esquecida em algum lugar entre uma panela e outra
Mal consegue se arrumar, mal consegue fazer o número 2 em paz, e sai correndo para trabalhar igual uma louca.
Volta exausta, e adivinha? Outra jornada a esperando.
Enquanto isso, ele…
acorda 7:40 da manhã, toma seu café com a calma de um monge zen,
e sai tranquilo para o trabalho.
Volta para casa, se atira no sofá e fica lá, afundado, roncando como se estivessem vivendo uma comédia romântica… só que sem romance e com muito mais comédia involuntária.
E enquanto ela pensava nisso tudo, ele continuava ali, com aquele olhar aceso.
E ela concluiu:
ela pode até precisar de fogo na vida —
mas não é esse fósforo molhado que vai acender alguma coisa nela.
Então sua mente fugiu para onde realmente vale a pena:
risoto dentro de um queijo gigante.
O queijo a recebe.
O queijo a ama.
O queijo não ronca.
O queijo não olha às 7h da manhã esperando milagre.
E foi nesse contraste gastronômico-existencial que ela entendeu:
o estranho na cozinha não era ele.
Era a mulher que ela foi apagando aos poucos —e que agora estava voltando, vibrante, faminta e rindo sozinha.
E então percebeu: não é só ela.
O risoto podia esperar.
Ela, não.
Anita Harmon, devidamente reacendida.