Sônia Lupion Ortega — SOL
Palavras que não gritam — mas permanecem.
Capa Meu Diário Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livro de Visitas Contato Links

Carta de Anita Harmon —

Olhares Acesos e Queijos Derretidos


 

Epígrafe:

 

Às mulheres maravilhosas que despertam,

criam coragem e

mudam a história de suas vidas —

que chutam o pau da barraca.



Hoje de manhã ela acordou e foi até a cozinha, ainda sonolenta, atrás de café.

E lá estava ele:

um estranho com cara de madrugada mal dormida, cabelo seboso, desgrenhado, parecendo que brigou com o travesseiro e perdeu.

Ela olhou. Ele olhou.

E seu estômago fez um giro digno de ginástica olímpica.

 

Os quartos separados há mais de dez anos eram quase um aviso luminoso:

“Cada um no seu quadrado emocional, por favor.”

 

Mas hoje teve um detalhe extra.

Quando ele a viu entrar na cozinha, lançou-lhe um olhar aceso, quase vivo demais praquela hora da manhã.

Como se, de repente, ela fosse interessante.

Como se uma fagulha tivesse surgido ali, do nada.

 

E seu pensamento, rápido como sempre, respondeu:

“Por que ela não acende pra você?”

Pausa dramática.

“Ah, é mesmo… deixe-me pensar.”

 

Às cinco da manhã ela já tinha vivido meio dia.
Café pronto.
Marmitas alinhadas.
Roupa lavada.
Família desperta.
E ela mesma… ainda esquecida em algum lugar entre uma panela e outra

 

Mal consegue se arrumar, mal consegue fazer o número 2 em paz, e sai correndo para trabalhar igual uma louca.

Volta exausta, e adivinha? Outra jornada a esperando.

 

Enquanto isso, ele…

acorda 7:40 da manhã, toma seu café com a calma de um monge zen,

e sai tranquilo para o trabalho.


Volta para casa, se atira no sofá e fica lá, afundado, roncando como se estivessem vivendo uma comédia romântica… só que sem romance e com muito mais comédia involuntária.

 

E enquanto ela pensava nisso tudo, ele continuava ali, com aquele olhar aceso.

E ela concluiu:

ela pode até precisar de fogo na vida —

mas não é esse fósforo molhado que vai acender alguma coisa nela.

 

Então sua mente fugiu para onde realmente vale a pena:

risoto dentro de um queijo gigante.

O queijo a recebe.

O queijo a ama.

O queijo não ronca.

O queijo não olha às 7h da manhã esperando milagre.

 

E foi nesse contraste gastronômico-existencial que ela entendeu:

o estranho na cozinha não era ele.

Era a mulher que ela foi apagando aos poucos —e que agora estava voltando, vibrante, faminta e rindo sozinha.

 

E então percebeu: não é só ela.

 

 

O risoto podia esperar.

 

Ela, não.

 

Anita Harmon, devidamente reacendida.

Sônia Lupion Ortega Wada SOL
Enviado por Sônia Lupion Ortega Wada SOL em 25/11/2025
Alterado em 17/07/2026
Copyright © 2025. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários