Hiroshima, meu amor
Hiroshima repousa sobre o linimento azul do oceano como um suspiro sobrevivente.
A cidade parece acordar todos os dias com a delicadeza de um botãozinho de flor que insiste em semear paz, mesmo ali, onde o chão já carregou um silêncio irreparável.
A vida, grávida de coragem, emerge das ruínas como quem desfaz, pétala por pétala, o destino que a brutalidade tentou lhe impor.
Tsurus atravessam o céu em voos demorados, derramando penas acetinadas que caem como bênçãos.
São flores no ar, são pássaros de papel, pequenos mensageiros lembrando ao mundo que a esperança tem raízes profundas, mesmo quando tudo parece queimado.
E o povo — esse povo de alma firme — guarda cicatrizes que não pedem compaixão, mas memória.
Ali, a dor se fez monumento, a ruína se fez alerta, e a arte aprendeu a falar pelo que não pode mais ser dito.
Porque a rosa negra que visitou o Japão não brotou do inferno.
Brotou do lado escuro da alma humana — desse território sombrio que ainda vive dentro de tantos governantes, cujas decisões espalham pestilências por onde passam.
Mesmo assim, Hiroshima segue caminhando pelos corações do mundo.
Entra delicadamente, deixa marcas suaves, como quem toca um rosto querido.
E em cada marca há um lembrete silencioso:
da maior devastação pode nascer um desejo ainda maior de paz.
E de amor — um amor que resiste, que aprende, que vigia.
Imagem: Google.
Texto reeditado em Prosa.