O Dia em que Morri no Banheiro
Sônia Lupion Ortega Wada
Eu morri no banheiro. Ou, pelo menos, tive certeza absoluta disso às sete e pouca da manhã, com a dignidade escorrendo pelo ladrilho e a coragem evaporando como vapor de chuveiro.
Foi tudo muito rápido: a pressão despencou, minhas pernas viraram gelatina vencida, o suor brotou como se alguém tivesse aberto a torneira errada do meu corpo. Pensei: “Pronto. É hoje. Parto daqui mesma, sem nem ter cabelo.”
Apoiei-me na pia como quem abraça um último amigo. O espelho devolveu meu retrato fantasmagórico — um branco pálido que nem os filtros mais bondosos teriam coragem de melhorar. Tentei chamar ajuda, mas a voz saiu fininha, um miado triste de quem já se despede.
Sentei no chão frio. Nada mais digno que isso: uma mulher adulta, sobrevivente de quimioterapia, antibióticos fortes e inúmeros dramas, largada no tapete higiênico da casa, pensando em quem encontraria primeiro o corpo.
— Que vexame, meu Deus. Logo eu, que sempre gostei de morrer com certa elegância.
Mas eis que, mesmo na iminência do fim, o instinto materno dá um jeito de berrar dentro da gente. Lembrei da minha neta.
“Se eu morrer aqui, quem vai buscá-la? Quem vai avisar? Coitada!”
E, num acesso súbito de responsabilidade completamente incompatível com a situação crítica, reuni forças e engatinhei. Sim, engatinhei como quem volta à primeira infância — porém com muito menos graça.
E então começou o épico: o vai-e-vem entre o banheiro e o quarto aconteceu quatro vezes.
Na terceira, já não havia mais dúvida: a Dona Morte estava ali, instalada no banheiro, provavelmente sentada na tampa do vaso, só esperando eu vacilar.
Foi nessa hora que, com a mão trêmula, peguei o celular e liguei para minha irmã.
— Eu estou muito mal… acho que vou morrer.
E completei, com a honestidade dramática de quem está no limite:
— Fale comigo. Pelo menos eu morrerei com alguém que me ama.
O trajeto do banheiro até o quarto foi digno de filme dramático de baixo orçamento. Cada metro parecia dez quilômetros. A vertigem dançava comigo como um par ruim de forró. Finalmente alcancei a cama e me estendi ali, arfando, pálida, teatral. Continuei morrendo, mas agora de modo mais confortável.
Fechei os olhos. Respirei fundo. Esperei pela luz divina, que não veio. Em compensação, veio um silêncio enorme, desses que fazem a gente reconsiderar a vida, a morte e o excesso de bactérias que um antibiótico pode matar — incluindo as nossas.
Depois de alguns minutos, percebi algo importante:
Eu estava viva.
Viva e ridícula, mas viva.
Aos poucos o corpo foi voltando, como quem bate ponto depois do almoço. A cor retornou ao rosto, a pressão se lembrou de subir, e o meu senso de humor — esse fiel escudeiro — reapareceu como um gato que volta só quando quer.
Levantei devagar, ainda meio fantasma, e fui beber água. Pensei:
“Se é para morrer dramaticamente, que ao menos não seja no banheiro. A gente merece um cenário melhor.”
No fim do dia, já recuperada, contei tudo para a família. Riram, se assustaram, riram de novo. Eu também ri — porque sobreviver tem dessas coisas: às vezes a gente só entende a graça depois que passa o susto.
E desde então prometi uma coisa a mim mesma:
Se um dia eu realmente morrer, que seja na sala, de batom bonito, peruca ajeitado e luz adequada.
No banheiro, nunca mais.
Nota da autora:
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