O Lugar Onde o Nós Descansou
O amor terminou numa manhã tão quieta
que até o vento hesitou em atravessar a janela.
Não houve ruptura — apenas um desvanecer lento,
como a claridade que se recolhe antes de o dia perceber.
Não fui eu quem escreveu o adeus.
Foi o próprio tempo quem, com dedos invisíveis,
desfez as margens onde um dia te desenhei.
O gesto era tão leve
que quase parecia cuidado.
Guardei o que era teu
não em páginas, mas em arestas de memória:
o riso que hoje pertence mais ao ar do que a mim,
a ternura que ficou transparente demais para chamar de nossa.
E ainda assim, nada virou pó.
O que fomos apenas mudou de estado —
virou silêncio que não pesa,
virou lembrança que não fere,
virou presença sem forma.
Hoje, quando penso em nós dois,
é como lembrar a passagem de um perfume:
não está, mas ainda visita o ar.
E é nesse intervalo,
entre o que se foi e o que permaneceu luz,
que encontro o lugar onde o nós descansou.
Nota da autora:
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