Sônia Lupion Ortega — SOL
Palavras que não gritam — mas permanecem.
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Indiferença

 

 

 

Eu fui criada no interior, entre vidas simples e gestos automáticos de humanidade: dar “bom dia” ao vizinho, ao padeiro, ao leiteiro. Meus pais, humildes e sem estudos formais, eram ricos em moral, ética e dignidade. Éramos pobres, mas crescemos cercados de exemplos que davam sentido ao mundo.

 

Quando vi a reportagem sobre um corpo abandonado na calçada de uma das mais belas praias do Rio de Janeiro, passei dias ruminando meus pensamentos. A indignação tomou conta de mim. Pessoas caminhavam, tiravam fotos, sorriam — e o corpo ali, imóvel, incorporado à paisagem, tratado como se fosse parte do chão.

 

Naquela cena eu vi uma sociedade caída: um mundo onde o prazer imediato e o bem-estar individual valem mais que a vida humana. A indiferença me feriu. Pessoas destruindo aquilo que não conseguem transformar. Pessoas criadas sem ética, afogadas em sua própria barbárie cotidiana.

 

Como esperar que uma sociedade sem moral, que reduz a miséria e a pobreza à condição de objetos, consiga resolver seus problemas mais urgentes?

 

O filósofo Thomas More já dizia: “Nenhum homem é uma ilha.” E, no entanto, ao observar aquela praia, parecia que todos estavam ilhados dentro de si mesmos — desconectados, apartados, anestesiados.

 

No cotidiano, lidamos com problemas que exigem decisão e avaliação, mas já não pensamos criticamente. Agimos por hábito. Repetimos comportamentos. Acompanhamos a manada para evitar constrangimentos. E assim fingimos indiferença.

 

Foi o que vi ali: ninguém queria se envolver. Chamar a polícia, perder horas, enfrentar burocracias, encarar o corpo, assumir responsabilidades — tudo parecia pesado demais. Melhor seguir sorrindo, registrando o sol, posando para fotos.

 

A indiferença, então, não era apenas ao corpo. Era ao incômodo. Era ao dever moral. Era ao outro.

 

E essas mesmas pessoas que desviam o olhar dormem tranquilas. Desligam seus aparelhos. Dão adeus aos problemas sociais como quem fecha uma janela incômoda. Sentem-se aliviadas, acreditando que não têm culpa pelo mendigo que dorme enrolado em jornais, nem pelas famílias inteiras abandonadas nas ruas. Ignoram a própria responsabilidade diante das injustiças.

 

Enquanto acharmos normal “levar vantagem”, naturalizarmos a miséria, tratarmos favelas como falhas na paisagem urbana, ou aceitarmos o desrespeito como regra de convivência — não haverá transformação.

 

Mas sigo em frente, aliviada por saber que existem pessoas que querem mudar. Seres humanos que se envolvem, que lutam contra as injustiças, que denunciam preconceitos e educam seus filhos com dignidade. Pessoas que compreendem que amor e compaixão abrem portas onde antes só havia muros. Pessoas que sabem que somos todos iguais e desejamos o mesmo: viver numa sociedade justa, segura, humana. Em harmonia.


 

 

Reeditei, estamos no inicio de 2026 e praticamente nada mudou. 
 

 

 

 

Texto Reeditado

versão original- 22/05/2007.

aqui no Recanto das Letras. 

 

 

Nota da autora:

Esta obra é protegida pela Lei nº 9.610/98. É vedado o uso do nome da autora, de trechos ou de interpretações da obra para fins de publicação, validação simbólica ou reapresentação pública sem autorização expressa.

 

Sônia Lupion Ortega Wada SOL
Enviado por Sônia Lupion Ortega Wada SOL em 16/01/2026
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