O sobrenome que virou sol
Desde menina, fiz do meu nome uma metáfora.
Enquanto outras crianças apenas assinavam o que lhes pediam na escola, eu inventava uma assinatura como quem inventa um destino.
Escrevia meu nome e, no fim, deixava uma pequena revelação escondida:
Sonia Ortega Lupion — SOL.
Não era vaidade.
Era desejo.
Desejo de ser luz.
De não passar pelo mundo como sombra.
De acreditar que uma pessoa pode aquecer um dia alheio, mesmo sem perceber.
E também era outra coisa — talvez ainda mais profunda:
um gesto silencioso de preservação.
Minha mãe se chamava Lupion.
Num mundo em que os sobrenomes das mulheres costumam desaparecer como se fossem detalhes, eu quis fazer diferente.
Na tradição espanhola, a mãe permanece no nome.
Ela não é apagada.
Ela atravessa gerações.
Eu carreguei Lupion como quem carrega uma raiz.
Depois a vida me levou longe.
Muito longe.
O Japão me recebeu com seus alfabetos próprios e suas formas de ordenar o mundo.
E um dia vi meu nome escrito em katakana, inteiro, como se fosse uma nova constelação:
ルピオンオルテガワダソニア
Lupion Ortega Wada Sonia.
Era estranho e belo.
Ali estavam todos os meus caminhos:
Lupion, minha mãe — a origem feminina.
Ortega, a linhagem antiga.
Wada, a vida construída do outro lado do oceano.
E por fim, Sonia — eu, ainda a mesma criança que assinava Sol.
Foi então que percebi:
meu nome não era apenas um nome.
Era um mapa.
E o que mais me emociona é que esse mapa não termina em mim.
Meus filhos assinam Lupion Ortega Wada,
Minha nora assina Lupion Ortega Wada
Minhas netas também:
Lupion Ortega Wada
Lupion Ortega Wada :
Consegui.
Preservei Lupion por mais gerações.
O sobrenome da minha mãe atravessou continentes, atravessou línguas, atravessou o tempo.
Não morreu em mim.
Virou futuro.
Há nomes que são mais do que registro civil.
São pequenos atos de amor.
E talvez seja isso que eu sempre tenha buscado desde menina:
ser Sol —
não apenas como brilho pessoal,
mas como herança.
Uma luz que passa adiante.
Hoje estou aqui.
A quimioterapia quase me matou por dentro.
Depois fui cortada e costurada — cirurgia.
E ainda serei atravessada pelo fogo controlado da radioterapia.
Cortar. Costurar. Queimar.
Há verbos que parecem cruéis quando aplicados a um corpo humano.
Mas talvez seja assim que a vida faz sua alquimia.
Porque ser Sol não é apenas brilhar.
Ser Sol é também suportar a combustão.
É atravessar o incêndio e permanecer.
E então compreendo:
não estou apenas sobrevivendo.
Estou renascendo.
Como uma fênix antiga,
que não nega as cinzas —
mas faz delas o seu chão de recomeço.
Carrego minha mãe no nome.
Carrego minhas netas no futuro.
Carrego cicatrizes como quem carrega mapas.
E mesmo que o mundo me queime por fora,
há uma luz que não se apaga.
Porque depois do fogo…
eu renasço.
Imagem: Minha Mãe.