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Quando a cerejeira resolveu florescer no inverno
Crônica de Anita Harmon
Hoje cedo, ao abrir a janela do meu quarto, vi uma cerejeira em flor. E por um instante, achei que estava enganada quanto à estação. Mas não — o calendário não mentia. Era inverno.
Ela, no entanto, florescia como se ignorasse as regras da natureza. Como se dissesse, com uma teimosa elegância: “não me interessa o tempo certo — floresço quando preciso.”
Fiquei olhando aquele rosa inesperado contra o cinza do céu frio, como quem vê uma loucura boa — dessas que desafiam a lógica, mas salvam o dia de quem passa por elas. Era como encontrar poesia no verso de um boleto, ou um bilhete de amor dentro da conta de luz.
Pensei então nas pessoas-cerejeiras que conheci: aquelas que florescem fora de hora, que não pedem permissão ao clima, que não se intimidam com os ventos contrários. Elas também costumam surpreender. E às vezes, incomodar. Porque desobedecer ao tempo assusta — mas também liberta.
Me lembrei de uma senhora japonesa que conheci em Kyoto, que dizia que a verdadeira beleza da cerejeira está no fato de que ela não dura. E que por isso mesmo, precisamos estar inteiros quando ela acontece. Inteiros, presentes, atentos. Como quem assiste a um milagre modesto.
Hoje, a cerejeira do meu quintal resolveu florescer no inverno.
E eu?
Resolvi florescer também — ainda que me digam que não é hora.
Porque há dias em que a alma não cabe no calendário.
Com ternura,
Anita
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Sônia Lupion Ortega Wada
Nota da autora:
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