A Senhora da Vigília
(Quando a Insônia Escreve
Ela é a guardiã do limiar. A que chega sem bater, é espelho e espanto.
Ela vem —
com os pés descalços e as unhas pintadas de silêncio.
Insônia.
Conhece o caminho como um gato noturno
que vive entre os vãos do pensamento.
Não bate.
Entra.
Contra ela, já usei o arsenal das almas cansadas:
chá de camomila em xícaras místicas,
meditações guiadas com vozes de algodão,
histórias lidas por monges digitais… Nada.
Ela sorri, escorada no batente da mente,
cruza as pernas e acende um cigarro feito de lembranças.
Sabe tudo.
Sabe de mim antes de mim.
Ela vive nos pensamentos que escondi de mim mesma
durante o dia.
Fiz acordo, fiz oração, fiz promessa.
Mas ela —
tecelã de sombras —
prefere o escuro em que minha alma respira mais fundo.
Ela me conta segredos
que eu jamais escreveria acordada.
Me obriga a ouvir a sinfonia dos relógios,
a confissão do teto,
e sussurro do coração.
Ela me chama pelo nome que ninguém usa mais.
Às vezes me embala, sim,
mas no colo do abismo.
Insônia é um nome,
mas também é um espelho.
E há quinze anos
ela me olha de dentro.
E não pisca.
Sônia Lupion Ortega Wada
Reedição
Nota da autora:
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