O Mundo Não Aguenta Mais Opinar
Antigamente, o mundo acabava em silêncio.
Hoje, ele acaba com notificações — e, curiosamente, várias vezes ao dia.
Basta abrir o celular para descobrir que algo gravíssimo aconteceu há três minutos e já há quem tenha uma opinião formada, estruturada e, se possível, indignada.
Vivemos a era da opinião instantânea.
Não é mais necessário entender — basta reagir.
Especialistas foram gentilmente substituídos por pessoas com tempo livre e conexão à internet.
E confiança. Muita confiança.
Há quem opine sobre política entre um gole de café e outro, explique economia enquanto espera o elevador e resolva questões médicas com a mesma tranquilidade de quem escolhe um filtro de imagem.
Tudo com uma segurança impressionante.
O mais curioso é que ninguém mais parece disposto a ouvir.
O diálogo virou um esporte de interrupção: vence quem fala primeiro, mais alto e, de preferência, com alguma frase pronta.
“Eu acho” virou argumento.
“Eu li” virou prova.
E “todo mundo sabe” encerra qualquer discussão.
Enquanto isso, o mundo segue… exausto.
Exausto de ser interpretado, explicado, julgado e compartilhado antes mesmo de acontecer completamente.
Há uma fadiga coletiva no ar — difícil de medir, mas fácil de sentir.
Cansa acompanhar.
Cansa discordar.
Cansa até concordar.
Talvez estejamos diante de um fenômeno curioso: nunca tivemos tanto acesso à informação… e tão pouca paciência para processá-la.
Pensar, ao que parece, ficou demorado demais.
Confesso que tenho simpatia crescente por quem ainda diz “não sei”.
É quase um gesto de elegância intelectual.
Raro, inclusive.
Porque, no ritmo atual, admitir dúvida parece um atraso — e ninguém quer ficar para trás, mesmo quando não está claro para onde todos estão indo.
No meio desse ruído, tenho adotado uma prática simples:
nem tudo precisa da minha opinião.
É libertador.
O mundo continua girando, as notícias continuam chegando e, surpreendentemente, nada desmorona se eu não comentar.
Talvez o verdadeiro luxo contemporâneo não seja saber de tudo —
mas conseguir, com alguma dignidade, ignorar um pouco.
E seguir.
Em silêncio, se possível.
Antes que chegue a próxima notificação.
SOL
Nota da autora:
Esta obra é protegida pela Lei nº 9.610/98. É vedado o uso do nome da autora, de trechos ou de interpretações da obra para fins de publicação, validação simbólica ou reapresentação pública sem autorização expressa.