Sônia Lupion Ortega — SOL
Palavras que não gritam — mas permanecem.
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Cadê a banana que estava aqui?

Crônica sobre crise, consumo e outras sumidas.

 


Sexta-feira.

 

Não é dia 13, mas o pregão deu um susto no mundo todo. O Japão fechou em baixa — quase chegou à casa dos dez negativos, o índice mais baixo dos últimos vinte anos. A recessão atinge a Ásia de forma violenta. Nosso dinheiro desapareceu.

 

E não é só o dinheiro que anda sumindo, não.

 

Eu não consigo mais consumir bananas.

 

Você deve estar se perguntando: por que colocar banana no meio dessa conversa?

 

Eu introduzi a banana aqui porque fizeram um golpe de marketing surpreendente na televisão japonesa. Reuniram celebridades, pessoas lindas. Disseram que fazem a tal “dieta da banana”: comem duas por dia. Resultado? Os supermercados lotam suas prateleiras, mas até as dez da manhã o povo já comprou tudo — não sobra uma sequer.

 

O japonês é sempre muito econômico.

Em tempos de crise, ninguém gasta.

 

O comércio está correndo riscos. A indústria automobilística lança novos modelos. O povo, com medo dos juros altos, não compra.

A construção civil oferece descontos generosos em imóveis. Mesmo assim, o japonês hesita. E pensar que é muita grana…

 

O que está em alta?

O consumo de produtos importados, a vontade de vestir-se melhor — e claro, a bendita banana, que realmente está com preço de banana. Isso continua fazendo de países exportadores um sucesso silencioso em meio ao caos.

 

Um dólar oscila, sobe, desce — mas nunca deixa de mexer com o humor do mundo.
Nunca os produtos importados pareceram tão acessíveis — e, ao mesmo tempo, nunca tivemos tanta sensação de instabilidade.

 

Então, se não estou enganada, a crise continua sendo relativa.

Uns perdem muito. Outros apenas ajustam o consumo.

E há quem descubra que duas bananas por dia resolvem quase tudo.

 

É isso mesmo: economia em plena crise mundial.

O trabalhador ainda tenta fazer o dinheiro render, guardar, enviar, sobreviver.

A lógica não mudou.

 

O povo americano já pagou preços altos em outras crises — e continua pagando em novas versões do mesmo enredo.

Enquanto isso, os grandes continuam grandes, trocando apenas os nomes no topo.

 

Antes era Bush.

Hoje são outros rostos, outros discursos, outras promessas de grandeza.

 

Falam em novos conflitos, tensões que atravessam continentes, guerras que ameaçam mercados — Irã, instabilidade, discursos inflamados que fazem o mundo prender a respiração por alguns instantes… até voltar ao normal.

 

Mas, no fundo, a engrenagem é a mesma.

 

Os milionários continuam comendo lagostas e caviar, comprando carrões maravilhosos e dormindo em lençóis de linho egípcio — tranquilos como anjos. Afinal, suas dívidas sempre encontram um jeito de desaparecer.

 

O povo, como sempre, paga a conta.

 

Talvez o sucesso da banana ainda esteja subestimado.

 

Quem sabe, se certos líderes comessem duas por dia, não ficariam mais leves — ou pelo menos mais silenciosos.

 

A propaganda continua sendo a alma do negócio.

 

E o povo continua o mesmo, no mundo todo:

 

fácil de influenciar.

 

Paga juros altos, perde o emprego, aperta o orçamento — e segue acreditando.

 

Assim também é o japonês: persistentemente disciplinado, agora não só obedece — adapta-se.

E continua comprando banana. Mesmo com tantas outras frutas tão baratas quanto.

 

E a vida segue…

 

Cadê a banana?

Cadê o dinheiro?

 

Agora ninguém sabe exatamente quem comeu.

 

Crônica de Sônia

Mie, Japan, 2008.


 

Nota da autora (2026)

 


Escrevi esta crônica em 2008.

Na época, parecia um retrato pontual de uma crise e de um curioso “surto da banana” no Japão.

Hoje, ao reler, percebo que ela não envelheceu — apenas trocou de cenário.

 

Os nomes mudaram.

As estratégias, nem tanto.

 

Continuamos assistindo às mesmas engrenagens:

medo, consumo, influência e adaptação.

 

Talvez a única diferença seja esta:

agora sabemos… e mesmo assim seguimos.

 

Sônia Lupion Ortega Wada SOL

Sônia Lupion Ortega Wada SOL
Enviado por Sônia Lupion Ortega Wada SOL em 30/03/2026
Alterado em 30/03/2026
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