Manual rápido para parecer profundo (sem ter tido o trabalho)
Ultimamente tenho observado um fenômeno curioso.
Há textos que surgem com uma familiaridade quase íntima,
como encontrar uma roupa sua
vestida em outro corpo,
com pequenos ajustes, claro,
para não dar tanto na cara.
A ideia permanece.
A estrutura também.
A sensação… essa denuncia.
Mas agora vem com outra assinatura.
E segue.
Com boas leituras, inclusive.
Não me incomoda tanto quanto parece.
Porque existe uma diferença silenciosa
entre quem constrói
e quem reproduz.
Construir dá trabalho.
Exige tempo, repetição,
erros que ninguém vê,
silêncios longos
e aquela insistência teimosa
de quem sabe que ainda não chegou,
mas continua.
Reproduzir é mais rápido.
Pega-se a forma,
ajusta-se a superfície,
e pronto:
tem-se algo que parece profundo.
Funciona.
Até certo ponto.
Porque o que atravessa de verdade
não depende da frase,
depende de quem a sustenta.
E isso não se copia.
No fim, é simples.
O que precisa correr
ainda não criou raiz.
O que é verdadeiro
fica.
Anita Harmon
— SOL