Quando a Dor Vira Material
É preciso dizer com todas as letras:
Existe uma diferença enorme — e perigosa — entre quem é psicólogo e quem apenas se apresenta como alguém que “escuta”.
Psicólogo é profissão regulamentada.
Exige formação, registro, responsabilidade ética e compromisso legal com o sigilo.
Psicanalista, não.
Não há exigência legal de formação específica.
Não há conselho que fiscalize.
Não há garantia de preparo.
E é exatamente nesse vazio que muitos se colocam como referência para pessoas em sofrimento.
Agora, vamos ao ponto mais grave.
Comunidades de câncer — especialmente nas redes sociais — se tornaram terreno fértil para esse tipo de atuação.
Ali estão pessoas:
em tratamento,
fragilizadas,
assustadas,
tentando sobreviver.
E é nesse cenário que aparecem anúncios:
“Ofereço escuta.”
“Já passei por isso.”
“Quero ajudar outras mulheres.”
A pessoa chega vulnerável.
Acredita.
Confia.
E começa a falar.
Fala da doença.
Do corpo.
Dos efeitos do tratamento.
Da solidão.
Do medo da morte.
Fala porque precisa.
E não percebe que, muitas vezes, não está sendo acompanhada —
está sendo observada.
Anotada.
Absorvida.
Transformada em conteúdo.
Porque hoje não faltam livros.
Não faltam textos.
Não faltam “especialistas” falando sobre experiências que não viveram na mesma profundidade.
E é aí que a linha é ultrapassada.
Quando a dor do outro deixa de ser acolhida
e passa a ser utilizada.
Quando a escuta deixa de ser ética
e vira coleta.
Quando a relação deixa de ser cuidado
e se torna extração silenciosa de experiência.
Muitas vezes, o psicanalista ou “ouvinte” atinge o objetivo — reconhecimento, autoridade, material para textos ou livros —
e então abandona o paciente.
Não há acompanhamento, nem responsabilidade, nem compromisso com o sofrimento que ficou para trás.
Sim, isso precisa ser dito:
Existe gente usando a fragilidade de pacientes oncológicos como fonte de material.
Para livros.
Para textos.
Para construir autoridade.
E isso não é cuidado.
Isso é apropriação.
Isso é atravessar um limite que não deveria sequer ser cogitado.
Porque quem está ali não é tema.
Não é personagem.
Não é “inspiração”.
É uma pessoa real, vivendo algo extremo.
E mais grave ainda:
Muitas dessas relações não têm contrato,
não têm clareza,
não têm limite.
Só têm confiança.
E confiança, quando violada, não deixa só frustração.
Deixa marca.
Por isso, o alerta é direto:
Nem toda escuta é ética.
Nem todo acolhimento é cuidado.
Nem todo “quero ajudar” vem sem interesse.
Antes de se abrir, pergunte:
Quem é essa pessoa?
Qual a formação real?
Existe responsabilidade?
Existe limite?
Porque, na ausência dessas respostas,
existe risco.
E não é pequeno.
Não somos material.
Não somos fonte.
Não somos base para construção de narrativa alheia.
Somos pessoas.
E quem se aproxima da dor do outro
sem preparo, sem ética e sem limite
não está cuidando.
Está usando.
Sônia Lupion Ortega Wada—SOL