Sônia Lupion Ortega — SOL
Palavras que não gritam — mas permanecem.
Capa Meu Diário Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livro de Visitas Contato Links

Quando a Dor Vira Material


 

É preciso dizer com todas as letras:

 

Existe uma diferença enorme — e perigosa — entre quem é psicólogo e quem apenas se apresenta como alguém que “escuta”.

 

Psicólogo é profissão regulamentada.
Exige formação, registro, responsabilidade ética e compromisso legal com o sigilo.

 

Psicanalista, não.

 

Não há exigência legal de formação específica.
Não há conselho que fiscalize.
Não há garantia de preparo.

 

E é exatamente nesse vazio que muitos se colocam como referência para pessoas em sofrimento.

 

Agora, vamos ao ponto mais grave.

 

Comunidades de câncer — especialmente nas redes sociais — se tornaram terreno fértil para esse tipo de atuação.

Ali estão pessoas:
em tratamento,
fragilizadas,
assustadas,
tentando sobreviver.

 

E é nesse cenário que aparecem anúncios:

“Ofereço escuta.”
“Já passei por isso.”
“Quero ajudar outras mulheres.”

 

A pessoa chega vulnerável.
Acredita.
Confia.

E começa a falar.

Fala da doença.
Do corpo.
Dos efeitos do tratamento.
Da solidão.
Do medo da morte.

Fala porque precisa.

 

E não percebe que, muitas vezes, não está sendo acompanhada —

 

está sendo observada.

Anotada.
Absorvida.
Transformada em conteúdo.

 

 

Porque hoje não faltam livros.
Não faltam textos.
Não faltam “especialistas” falando sobre experiências que não viveram na mesma profundidade.

 

E é aí que a linha é ultrapassada.

 

Quando a dor do outro deixa de ser acolhida
e passa a ser utilizada.

Quando a escuta deixa de ser ética
e vira coleta.

Quando a relação deixa de ser cuidado
e se torna extração silenciosa de experiência.

 

Muitas vezes, o psicanalista ou “ouvinte” atinge o objetivo — reconhecimento, autoridade, material para textos ou livros —

 

e então abandona o paciente.

 

Não há acompanhamento, nem responsabilidade, nem compromisso com o sofrimento que ficou para trás.

 

Sim, isso precisa ser dito:

 

Existe gente usando a fragilidade de pacientes oncológicos como fonte de material.

Para livros.
Para textos.
Para construir autoridade.

E isso não é cuidado.
Isso é apropriação.
Isso é atravessar um limite que não deveria sequer ser cogitado.

 

Porque quem está ali não é tema.

Não é personagem.
Não é “inspiração”.

 

É uma pessoa real, vivendo algo extremo.

 

E mais grave ainda:

 

Muitas dessas relações não têm contrato,
não têm clareza,
não têm limite.

Só têm confiança.

E confiança, quando violada, não deixa só frustração.

 

Deixa marca.

 

Por isso, o alerta é direto:

 

Nem toda escuta é ética.
Nem todo acolhimento é cuidado.
Nem todo “quero ajudar” vem sem interesse.

 

Antes de se abrir, pergunte:

Quem é essa pessoa?
Qual a formação real?
Existe responsabilidade?
Existe limite?

 

Porque, na ausência dessas respostas,
existe risco.

 

E não é pequeno.

Não somos material.
Não somos fonte.
Não somos base para construção de narrativa alheia.


Somos pessoas.


 

E quem se aproxima da dor do outro
sem preparo, sem ética e sem limite
não está cuidando.


Está usando.


 

Sônia Lupion Ortega Wada—SOL

 

 

Sônia Lupion Ortega Wada SOL
Enviado por Sônia Lupion Ortega Wada SOL em 02/04/2026
Alterado em 02/04/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Comentários