Sônia Lupion Ortega — SOL
Palavras que não gritam — mas permanecem.
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— Quando a Ciência Sustenta o Corpo no Câncer Triplo Negativo”

 

Um relato técnico e poético sobre tratamento oncológico, imunoterapia, quimioterapia e travessia pessoal.—

para que outras mulheres, ao iniciarem esse caminho, encontrem informação, coragem e dignidade.

 


 

I. Depois da tempestade

 

 

Existe um momento silencioso no tratamento oncológico que ninguém descreve com precisão:

quando o tumor desaparece.

 

Não é euforia.

Não é alívio completo.

É um espaço entre o que foi e o que ainda pode ser.

 

Depois do diagnóstico, depois das infusões, depois das noites em que o corpo parecia não reconhecer a si mesmo — chega esse instante em que a medicina diz:

“não vemos mais o tumor”.

 

Mas o corpo lembra.

E a alma também.

 

 

 

II. O corpo que respondeu

 

 

Meu tumor começou com 3,5 cm.

Carcinoma ductal invasivo triplo negativo, grau 3 — uma biologia conhecida pela agressividade e pela ausência de alvos terapêuticos clássicos.

 

Com poucas sessões de quimioterapia combinada e duas aplicações de imunoterapia, houve uma redução de aproximadamente 98%.

De 3,5 cm para 0,7 cm.

 

Depois, veio um intervalo inesperado:

três meses sem tratamento sistêmico, necessários para que fígado e pâncreas se recuperassem da toxicidade imunomediada.

 

Nesse período, o tumor não cresceu.

Não avançou.

Permaneceu em silêncio.

 

Esse silêncio também é dado clínico.

 

Com a introdução da quimioterapia antraciclina — Doxorrubicina associada à Ciclofosfamida — o tumor desapareceu das imagens.

 

Não é apenas resposta.

É sensibilidade tumoral ao tratamento.

 

E isso, na oncologia, é uma das formas mais concretas de prognóstico.

 

 

 

 

III. O que não aparece nos protocolos

 

 

Os protocolos descrevem doses, intervalos e taxas de resposta.

Mas não descrevem o cotidiano do corpo.

 

A quimioterapia vermelha não é apenas um nome.

É uma experiência.

 

Vieram a perda de peso, a constipação persistente, as hemorroidas que lembram o esforço do corpo em manter o básico.

As unhas escureceram — como se o organismo registrasse, em tinta própria, o que estava sendo atravessado.

 

Náuseas, refluxo, coriza constante — uma rinite que parecia traduzir uma inflamação difusa, silenciosa, contínua.

 

A neutropenia trouxe o risco invisível.

E com ela, não apenas exames e números — mas a necessidade de internações.

 

Houve momentos de isolamento total.

Fiquei em um espaço próximo à ala das enfermeiras — um quarto improvisado, funcional, quase um depósito — onde o objetivo era simples e vital: proteger.

 

Ali, o mundo se reduzia ao essencial.

Menos contato, menos risco, mais silêncio.

 

Mas nunca houve abandono.

 

Fui cuidada com atenção, respeito e presença.

Mesmo nos momentos de maior fragilidade, havia vigilância constante, mãos treinadas e um cuidado que não precisava de palavras.

 

Com a neutropenia, vieram também as injeções estimuladoras da medula óssea — pequenas intervenções para que o sangue voltasse a se defender.

 

O tratamento não acontece apenas no tumor.

Ele atravessa o corpo inteiro — e, às vezes, redefine o próprio espaço onde se vive.

 

 

IV. As veias também têm limite

 

 

Há um momento no tratamento em que o corpo começa a dizer não — não ao tratamento, mas à forma como ele é administrado.

 

Minhas veias foram, pouco a pouco, se tornando inacessíveis.

Punções repetidas, coletas semanais, infusões contínuas.

O que antes era um gesto simples — colher sangue — passou a exigir múltiplas tentativas, dor e, às vezes, fracasso.

 

O cateter totalmente implantável, o chamado port, foi indicado.

Mas sua colocação não foi imediata.

 

As complicações hepáticas e pancreáticas exigiram prioridade clínica.

Era preciso estabilizar o que havia sido inflamado antes de qualquer procedimento adicional.

 

Hoje, olho para trás com clareza:

se possível, o port deveria ser colocado já no início da quimioterapia.

 

Não é apenas uma questão de conforto.

É preservação das veias, redução de sofrimento e garantia de acesso seguro ao tratamento.

 

Hoje, não apenas a quimioterapia, mas também os exames de sangue são realizados por ele.

As veias periféricas já não respondem.

 

 

V. O preço da cura

 

 

No Japão, descobri que o tratamento não precisa significar ruína financeira.

 

Existe um sistema de limite mensal para doenças de alto custo.

No meu caso, iniciei pagando até 81 mil ienes por mês — cerca de 5 mil reais na época.

Tudo o que ultrapassava esse valor era reembolsado pelo governo.

 

Após alguns meses, esse teto foi reduzido para 44.400 ienes — aproximadamente 2.700 reais.

Ao atingir esse valor dentro do mês, nenhum custo adicional era cobrado.

 

É uma forma estrutural de cuidado.

 

 

VI. O corpo também se nutre para resistir

 

 

Entre protocolos, exames e medicações, há algo que sustenta o tratamento de forma silenciosa: a nutrição.

 

A ingestão adequada de proteínas tornou-se fundamental.

Nem sempre era possível apenas pela alimentação convencional, e a suplementação passou a ser necessária.

 

Utilizei suporte com vitamina B12, metilfolato e vitamina D3 associada à K2.

 

No Japão, encontrei no suco concentrado de ameixa amarela uma fonte constante de suporte.

A quinoa e pequenos grãos, como o amaranto, estiveram presentes.

 

Porque, durante o tratamento, não é sobre comer muito.

É sobre nutrir com intenção.

 

 

VII. A luz também pesa

 

 

Após a quimioterapia, vem a etapa que muitos imaginam ser mais leve — mas que também cobra seu preço: a radioterapia.

 

Estou na 11ª sessão de um total de 30.

 

A radiação não é sentida no momento.

Mas o corpo responde depois.

 

Veio uma dor difusa, profunda, que percorre braços, escápulas, ombros, costas e pernas —

uma dor muscular que lembra uma influenza intensa.

 

O sono se fragmenta.

O corpo não encontra posição.

 

A mama tratada dói, incha, endurece.

A pele avermelha e se torna sensível.

 

Dormir passa a ser adaptação: apenas do lado oposto.

 

Com a radioterapia, aprendi outro cuidado:

hidratação e uso disciplinado de cremes específicos à base de ureia, fornecidos pelo hospital.

 

Porque até a luz, quando cura, também exige cuidado.

 

 

VIII. O limite da medicina — e o início da escolha

 

 

A imunoterapia precisou ser interrompida.

O corpo respondeu — e também precisou ser protegido.

 

Nem sempre completar um protocolo significa melhor desfecho.

 

 

IX. O que ficou

 

 

O tumor desapareceu.

 

Mas ficou um corpo consciente.

Uma mente informada.

Uma voz ativa.

 

 

X. Entre o veneno e a luz

 

 

A medicina avança.

Mas é o corpo que responde.

 

O tumor desapareceu.

 

E eu permaneço. 🌸


 

Nota da Autora

 

 

Este texto não é um pedido de compaixão.

É um convite à consciência, à informação e à dignidade durante o tratamento do câncer.

 

 

 

Esta obra é protegida pela Lei nº 9.610/98. É vedado o uso do nome da autora, de trechos ou de interpretações da obra para fins de publicação, validação simbólica ou reapresentação pública sem autorização expressa.

 

Sônia Lupion Ortega Wada SOL
Enviado por Sônia Lupion Ortega Wada SOL em 03/04/2026
Alterado em 03/04/2026
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