Hanami
Há um tempo no Japão em que a vida floresce para fora.
E, sem perceber, a gente floresce junto.
Sob as cerejeiras, fico — não como quem observa,
mas como quem pertence.
Os galhos se curvam, leves, quase me tocando…
como se me reconhecessem.
Sorrio.
Não é pose.
É resposta.
Ao redor, famílias caminham devagar,
crianças correm,
o mundo inteiro parece caber naquele instante simples
de estar ali.
Chamam isso de hanami.
Mas não é só ver flores.
É sentir o tempo pousar.
As pétalas ainda estão presas,
mas já carregam o destino de cair.
E talvez seja isso que as torna tão belas.
Fico ali, entre o céu e os galhos,
sabendo — com uma calma que não se explica —
que esse momento não volta.
E ainda assim…
não falta nada.
Porque, por um instante,
eu também floresço.



Fotos: Acervo particular da autora.