O Menino que veio morar em mim
Havia um menino nos jornais.
E, de alguma forma, ele veio morar dentro de mim.
Não sei exatamente quando isso aconteceu.
Talvez no primeiro dia em que li a notícia.
Ou no segundo, quando percebi que ele ainda não tinha sido encontrado.
Ou no décimo, quando o silêncio começou a fazer barulho.
Só sei que, de repente, ele já estava aqui.
Sentado nos meus pensamentos.
Caminhando pelas minhas horas.
Interrompendo o meu sono.
Eu torcia por ele como se isso pudesse atravessar distâncias.
Inventei, dentro de mim, uma história mais leve:
a de um menino que decidiu ir embora.
Que pegou uma mochila pequena,
levou o que conseguiu
e fugiu de algo que não cabia mais dentro dele.
Era a versão que me deixava respirar.
Mas a realidade chegou sem pedir licença.
E quando chegou, trouxe junto um peso difícil de nomear.
Porque quando uma criança vira notícia até o fim,
alguma coisa no mundo falha —
e a gente sente.
Desde então, carrego perguntas que não têm resposta pronta.
O que acontece dentro de um lar
para que ele deixe de ser abrigo?
Em que momento o cuidado se perde?
Quando é que uma infância começa a desaparecer
antes mesmo de terminar?
Eu não conhecia esse menino.
Mas conheço crianças.
E sei que elas não deveriam carregar medos grandes demais,
nem silêncios longos demais,
nem dores que ninguém vê.
Criança precisa de colo,
de proteção,
de alguém que fique.
Hoje, não escrevo para explicar.
Escrevo porque não consegui esquecer.
Porque, de alguma forma,
ele ainda está aqui.
E talvez fique.
Até que o mundo aprenda
a não deixar mais nenhum menino
vir morar dentro da gente
desse jeito.
SOL
For you Adachi Yuki.
Menino assassinado pelo
padrastro em Kyoto - Japan
Nota da autora
Palavras têm origem.
E origem merece respeito.
Eu continuo.
SOL