“A delicadeza de existir em escolha”
Escolher nunca é simples.
Porque escolher não é apenas decidir — é arriscar, é renunciar, é seguir sem garantias.
Há uma ideia comum de que, na maioria das vezes, fazemos escolhas erradas.
Mas talvez isso não seja verdade.
O que acontece, quase sempre, é que julgamos o passado com o conhecimento que só veio depois.
Na hora da escolha, decidimos com o que temos:
afeto, medo, esperança, cansaço, amor.
Não é erro — é contexto.
Ainda assim, existe um ponto mais delicado.
Às vezes, a gente se afasta de si mesmo para caber em alguém ou em alguma situação.
E então não é exatamente uma escolha errada — é uma escolha incompleta, porque deixou você de fora.
E isso cobra um preço.
Protelamos.
Suportamos.
Nos adaptamos além do limite.
Até que, silenciosamente, isso se transforma em dor.
Mas há um detalhe que muda tudo:
escolher também é algo que pode ser refeito.
Você não está presa à decisão que tomou quando era outra versão de si mesma.
A vida não exige coerência absoluta — ela permite revisões.
Talvez, então, o dilema não seja entre acertar ou errar,
mas entre se abandonar ou se incluir na própria escolha.
E é aqui que essa reflexão encontra uma pergunta maior:
qual é o sentido da vida?
Se alguém disser que existe uma resposta definitiva e universal, provavelmente está simplificando demais algo que é, por natureza, aberto.
Albert Camus afirmava que a vida não traz um sentido pronto — e que encarar esse vazio pode ser angustiante, mas também libertador.
Já Viktor Frankl defendia que o sentido existe, mas precisa ser descoberto por cada pessoa, seja ao criar algo, amar alguém ou enfrentar o sofrimento com dignidade.
Entre essas duas visões, talvez exista um ponto de encontro:
o sentido da vida não é algo que você encontra como um objeto perdido —
é algo que você constrói enquanto vive.
E, no fundo, ele se revela nas escolhas.
Às vezes, em gestos simples:
no cuidado com alguém,
em um instante de beleza,
na criação de algo que antes não existia,
ou na coragem de continuar, mesmo quando tudo pesa.
O sentido não precisa ser grandioso.
Ele muda.
Se transforma.
Às vezes se perde — e depois se refaz.
Assim como as escolhas.
Por isso, talvez a forma mais honesta de dizer seja:
o sentido da vida não é algo que justifica a existência —
é a forma como você escolhe existir.
E, nesse processo, a escolha mais difícil — e mais essencial —
é não se deixar de fora.
SOL - Sônia Lupion Ortega Wada
Nota da autora
Palavras têm origem.
E origem merece respeito.
Eu continuo.
SOL