Sônia Lupion Ortega — SOL
Palavras que não gritam — mas permanecem.
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A passageira

 

Todos nós carregamos uma voz por dentro.
Esta é uma história sobre aprender a escutá-la… sem deixar que ela dirija.


 

Hoje eu não briguei comigo.

 

Ela começou cedo, como sempre.  
Nem tomou café e já estava opinando:

 

— Não vai dar. Você está cansada. Deixa pra depois.

 

Antes, eu acreditava.  
Ou então partia pra briga.

— Cala a boca. Eu vou fazer sim.

E assim a manhã começava:  
ou eu me arrastava obedecendo,  
ou me machucava tentando vencer.


Hoje foi diferente.

Eu só ouvi.

Sem pressa. Sem susto.

Como quem escuta uma passageira no banco ao lado,  
dessas que comentam o caminho,  
mesmo sem saber dirigir.

 

— Talvez você esteja cansada — eu disse, por dentro.

 

Ela ficou em silêncio por um instante.  
Não porque concordou,  
mas porque percebeu que eu não ia discutir.

 

Respirei.

 

O dia não precisava ser vencido,  
nem perfeito,  
nem heroico.

 

Só precisava ser vivido.

 

Levantei devagar.  
Não fiz tudo.  
Mas fiz alguma coisa.

 

E, curiosamente,  
isso foi suficiente para que o mundo não desabasse.

 

Ela ainda falou outras vezes:

— Não compensa.  
— Não agora.  
— Depois você tenta.

 

Eu ouvi tudo.

Mas não entreguei o volante.

 

No meio da tarde,  
enquanto o sol escorria pela janela,  
percebi uma coisa simples —  
quase pequena demais pra notar:

não era guerra.

 

Era convivência.

 

Ela não era minha inimiga.  
Mas também não era minha guia.

 

Era só uma voz.

E eu,  
pela primeira vez em muito tempo,  
era quem dirigia.

 

SOL

 

Nota da autora

 

Este texto não fala de espiritualidade, mas de um exercício prático de convivência com os próprios pensamentos.

A ideia é simples: perceber que a mente fala — o tempo todo — e que nem tudo o que ela diz precisa ser seguido.

Aprender a escutar sem obedecer automaticamente é uma habilidade treinável, estudada hoje em abordagens como o Mindfulness e a Terapia de Aceitação e Compromisso.

No fundo, trata-se apenas disso: continuar dirigindo, mesmo com a voz ao lado.

Sônia Lupion Ortega Wada SOL
Enviado por Sônia Lupion Ortega Wada SOL em 27/04/2026
Alterado em 28/04/2026
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