A passageira
Todos nós carregamos uma voz por dentro.
Esta é uma história sobre aprender a escutá-la… sem deixar que ela dirija.
Hoje eu não briguei comigo.
Ela começou cedo, como sempre.
Nem tomou café e já estava opinando:
— Não vai dar. Você está cansada. Deixa pra depois.
Antes, eu acreditava.
Ou então partia pra briga.
— Cala a boca. Eu vou fazer sim.
E assim a manhã começava:
ou eu me arrastava obedecendo,
ou me machucava tentando vencer.
Hoje foi diferente.
Eu só ouvi.
Sem pressa. Sem susto.
Como quem escuta uma passageira no banco ao lado,
dessas que comentam o caminho,
mesmo sem saber dirigir.
— Talvez você esteja cansada — eu disse, por dentro.
Ela ficou em silêncio por um instante.
Não porque concordou,
mas porque percebeu que eu não ia discutir.
Respirei.
O dia não precisava ser vencido,
nem perfeito,
nem heroico.
Só precisava ser vivido.
Levantei devagar.
Não fiz tudo.
Mas fiz alguma coisa.
E, curiosamente,
isso foi suficiente para que o mundo não desabasse.
Ela ainda falou outras vezes:
— Não compensa.
— Não agora.
— Depois você tenta.
Eu ouvi tudo.
Mas não entreguei o volante.
No meio da tarde,
enquanto o sol escorria pela janela,
percebi uma coisa simples —
quase pequena demais pra notar:
não era guerra.
Era convivência.
Ela não era minha inimiga.
Mas também não era minha guia.
Era só uma voz.
E eu,
pela primeira vez em muito tempo,
era quem dirigia.
SOL
Nota da autora
Este texto não fala de espiritualidade, mas de um exercício prático de convivência com os próprios pensamentos.
A ideia é simples: perceber que a mente fala — o tempo todo — e que nem tudo o que ela diz precisa ser seguido.
Aprender a escutar sem obedecer automaticamente é uma habilidade treinável, estudada hoje em abordagens como o Mindfulness e a Terapia de Aceitação e Compromisso.
No fundo, trata-se apenas disso: continuar dirigindo, mesmo com a voz ao lado.