Sônia Lupion Ortega — SOL
Palavras que não gritam — mas permanecem.
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Meninos e meninas que se apagam: entre o vazio de ser e o excesso de ter

O luxo do vazio — quando o ter enterra o ser. 

 

Crianças estão dizendo que não querem viver — e isso está acontecendo em silêncio.

 

Os dados mais recentes da sociedade japonesa indicam que o número de suicídios entre alunos do ensino fundamental, médio e superior em 2025 (dado provisório) deverá chegar a 532 — o maior já registrado.

 

Mas números não morrem.
Crianças, sim.

 

Por trás de cada estatística, há uma história interrompida — e quase nunca por um único motivo. Crianças não desejam desaparecer de repente. O suicídio, na maioria das vezes, é um acúmulo: dor em casa, silêncio na escola, ausência de acolhimento e uma sensação persistente de não ter valor.

 

É um desgaste invisível.

 

Quando conflitos familiares, isolamento, baixa autoestima, dificuldades escolares e sofrimento emocional se sobrepõem, a existência começa a pesar. Há também algo ainda mais silencioso: a repetição da dor. Algumas crianças, ao se automutilarem ou se habituarem ao sofrimento, vão perdendo o medo da morte.

 

E, quando o medo da morte desaparece, a vida deixa de ser um lugar seguro.

 

Relatos clínicos trazem frases que não deveriam existir na infância:
“queria acordar morta amanhã”
“não quero viver, mas ainda estou viva”

 

Não é sempre um desejo ativo de morrer.
É pior: é a ausência de esperança.

 

E a ausência de esperança não grita.
Ela apaga.

 

Essas palavras me atravessam de forma particular.
Eu já fui essa criança.

 

Cheguei aos 62 anos carregando memórias muito antigas de risco e desamparo. Aos três anos, sobrevivi a situações extremas de negligência: fui atacada por cães; fui atropelada diante de casa. Pequena demais para compreender o mundo, grande demais para estar segura nele.

 

Hoje, enfrento outro limite: um câncer.

 

A vida muda de cenário, mas certas marcas não desaparecem — apenas aprendem a se esconder melhor.

 

A infância molda silenciosamente a forma como existimos. Algumas feridas não gritam. Permanecem. E, quando não encontram espaço de escuta, tornam-se um silêncio interno que atravessa os anos.

 

Ao observar a sociedade japonesa, isso se torna ainda mais visível. Há, em muitos contextos, um fechamento emocional — uma vida marcada por ritmo intenso, cobrança e contenção afetiva. Pais que cuidam, mas nem sempre conseguem acolher emocionalmente. Crianças protegidas no corpo, mas nem sempre vistas em sua dor.

 

É nesse ponto que emerge uma tensão profunda: o conflito entre o ter e o ser.

 

O “ter” é construído com rigor: educação, segurança, estabilidade, desempenho.
Mas o “ser” — aquilo que envolve escuta, validação emocional, autoestima e pertencimento — muitas vezes fica em segundo plano, terceirizado à escola ou devolvido à própria criança.

 

A criança cresce com estrutura.
Mas sem espelho.

 

E quem não se vê, não se reconhece.

 

Nesse vazio, o valor pessoal começa a depender do olhar do outro. O pertencimento se fragiliza, e a identidade passa a ser buscada fora.

 

Em alguns casos — especialmente na adolescência — isso pode levar a caminhos de risco, onde o desejo de reconhecimento se mistura com consumo, exposição e vínculos instáveis. Há jovens tentando existir através do que possuem, do que mostram, do que entregam ao outro.

 

Mas nada disso sustenta.
Porque não preenche.

 

O que está por trás não é desvio.
É falta.

 

Falta de ser visto.
Falta de ser reconhecido.
Falta de existir com valor próprio.

 

E quando o “ser” não se sustenta de dentro, o “ter” vira tentativa de sobrevivência simbólica.

 

Um luxo vazio.

 

E o vazio, quando não encontra linguagem, vira sofrimento invisível — até o momento em que se torna insuportável.

 

Essa não é uma crítica à sociedade japonesa como acusação, mas como reflexão. Quando o amor não é verbalizado, quando o diálogo é escasso e quando a emoção precisa ser contida, crianças podem crescer sem referência interna de valor.

 

E uma sociedade onde crianças não encontram lugar…
forma adultos exaustos de existir.

 

O que essas vozes infantis pedem não é apenas intervenção clínica.

 

Pedem presença.
Escuta.
Tempo.

 

Um tipo de atenção que não seja funcional, nem apressada — mas humana.

 

Porque nenhuma criança deveria precisar desejar desaparecer
para finalmente ser percebida.

 

Sônia Lupion Ortega Wada — SOL

 

Imagem: Pinterest.

 

 

Nota da autora

 

Palavras têm origem.

E origem merece respeito.

 

Quem caminha comigo, honra.

Quem não honra, se revela.

 

Eu continuo.

Sônia Lupion Ortega Wada SOL
Enviado por Sônia Lupion Ortega Wada SOL em 30/04/2026
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