Viva, Ria e Ame
Há um instante raro
em que o dia não nasce —
ele floresce devagar,
como café quente na cozinha aberta
e luz entrando sem pedir licença.
O ar muda de textura,
pousa na pele como presença,
e o mundo parece mais próximo,
quase ao alcance da mão.
Manhã que se abre em flor,
com janela entreaberta e silêncio leve —
tudo respira no mesmo ritmo.
Viva.
Viva como quem encontra o chão
e sente que ele reconhece seus pés,
como quem atravessa o comum da rua
e descobre, sem esforço,
um brilho escondido no cotidiano.
O passo combina com o instante,
e estar aqui já não precisa de explicação.
Ria.
Ria do vento que muda o cabelo de lugar,
do café que quase escapa da xícara,
do acaso que encosta em você
como se soubesse o nome.
Ria como água encontrando pedra
e escolhendo dançar em vez de resistir,
abrindo caminho por dentro do dia
até que tudo fique mais leve.
E o riso fica —
não passa: habita.
Ame.
Ame o que não faz barulho,
mas sustenta tudo.
A conversa sem pressa,
o olhar que chega inteiro,
a mão que encontra outra mão
como se sempre tivesse pertencido ali.
Ame o instante simples
que não pede nome, só presença,
e mesmo assim acende por dentro
como mar em repouso.
E nesse dia que não precisa ser extraordinário
para ser inesquecível,
o mundo sussurra.
E tudo que toca
vira memória de luz.
Viva —
como quem reconhece a própria vida
no meio do café da manhã.
Ria —
como quem deixa o instante brincar consigo.
Ame —
como quem descobre que o agora
sempre foi suficiente.
SOL