Em trilha aberta
Há amores que são casa,
mas não têm fechadura.
A porta encosta —
não para impedir o mundo,
mas para acolher o silêncio
de quem escolheu ficar.
Entre dois corpos
não cresce uma cerca,
cresce um campo:
onde cada um caminha
sem deixar de ser horizonte do outro.
Te amo —
e não te caibo nas paredes do meu medo.
Te quero —
mas minhas mãos não aprendem nós.
Se fores,
não levas pedaços meus —
porque nunca te dei em partes,
te encontrei inteiro,
e inteiro te reconheço livre.
E se ficares,
que seja como o vento fica na pele:
sem dono,
sem nome,
mas impossível de não sentir.
Porque o amor mais bonito
não é o que prende —
é o que caminha ao lado
como trilha aberta no mundo.
SOL
Nota da autora
(sobre o que é este amor)
Não falo de um nome, nem de um rosto,
nem de uma história que possa ser contada.
Falo do amor que existe entre todos os que se encontram:
filhos, pais, irmãos, amigos, amantes —
quando o afeto não se confunde com posse,
e a presença não exige prisão.
Falo do amor que reconhece o outro inteiro,
e por isso não o diminui, não o prende, não o molda.
Falo de um amor que aprende a ser espaço.