Sônia Lupion Ortega — SOL
Palavras que não gritam — mas permanecem.
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Talvez Deus Tenha Mãos de Mãe
 

 

Quando eu era mais nova, imaginava Deus como algo distante.

 

Uma presença enorme,
invisível,
sentada em algum lugar acima do mundo,
observando a vida acontecer.

 

Depois cresci.

 

E a vida foi me mostrando outra coisa.

 

Descobri que talvez Deus — se existir —
não apareça primeiro no céu.

 

Talvez apareça nas pessoas que sustentam a vida.

 

E, entre elas,
as mães ocupam um lugar profundo demais para caber em definições.

 

Porque existe algo quase inexplicável no amor de uma mãe.

 

Ela passa noites acordada enquanto outro corpo dorme.
Sente medo antes do filho sentir.
Carrega preocupações silenciosas.
Diminui a própria fome.
Engole o próprio choro.
E continua.

 

Há mães que parecem feitas de uma matéria diferente:
uma matéria que suporta.

 

Quando a criança cai,
é para ela que o mundo corre.

 

Quando a dor chega,
é nela que a vida tenta se esconder.

 

E talvez seja justamente isso que mais se aproxima da ideia humana de Deus:

 

não o poder,
mas a permanência.

 

Porque criar uma vida é mais do que gerar um corpo.

 

É vigiar febres.
É ouvir silêncios.
É perceber tristezas antes das palavras.
É amar alguém até nas fases difíceis,
mesmo quando o amor ainda não sabe voltar.

 

E o mais estranho é que o tempo não diminui esse amor.

 

Os filhos crescem.
E os problemas crescem junto.

 

Mudam apenas de tamanho.

 

Primeiro, a mãe protege os passos.
Depois, tenta proteger escolhas,
silêncios,
ausências,
quedas que já não consegue impedir.

 

Há dores que ela não pode resolver.
Mesmo assim,
permanece.

 

As mães conhecem uma forma de presença que desafia a lógica.

 

Mesmo longe,
continuam percebendo.

 

Mesmo depois que os filhos crescem,
uma parte delas nunca deixa de viver em estado de cuidado.

 

Talvez por isso tanta gente procure Deus olhando para cima,
quando, às vezes,
o amor passou a vida inteira preparando café cedo,
dobrando roupas pequenas,
esperando acordada,
fazendo carinho em silêncio
e dizendo:
“vai ficar tudo bem.”

 

Não sei se Deus existe.

 

Ainda não sei.

 

Mas, se existir,
acho difícil acreditar que esteja muito longe do coração das mães.

 

Porque há algo nelas
que se parece
com a forma silenciosa
como a vida insiste em florescer,
mesmo num mundo duro.

 

E talvez o amor materno seja isso:

 

a forma mais humana
que o infinito encontrou
de tocar a Terra.

 

 SOL

 


 

Minha mãe, aos 89 anos — ainda sendo abrigo no mundo.

 

 

 

Sônia Lupion Ortega Wada SOL
Enviado por Sônia Lupion Ortega Wada SOL em 08/05/2026
Alterado em 13/05/2026
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