Azul em Ninho
Quando o azul desce em mim,
não vem do céu —
vem de dentro,
como se minhas águas lembrassem
de onde vieram.
É um azul que respira,
que se encosta na pele por dentro,
e aos poucos faz espaço
onde antes havia ruído.
Azul que pousa,
asa leve no silêncio —
peito amanhece.
Há um passarinho
que só aparece nesses instantes.
Não canta alto.
Não pede.
Apenas encosta o corpo mínimo
na vastidão que se abriu.
E eu reconheço:
é ali que o amor aprende
a não ferir.
Bico de vento,
costura calma no tempo —
ninho sem pressa.
Fico imóvel,
como quem não quer espantar
o que não veio para ficar —
mas fica.
E nesse acordo silencioso,
entre o azul que me habita
e a ave que me atravessa,
eu deixo de procurar abrigo.
Sou espaço.
Céu por dentro,
o que pousa me transforma —
e permanece.
SOL