Sônia Lupion Ortega — SOL
Palavras que não gritam — mas permanecem.
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Os Distribuidores de Conselhos

 

Há pessoas que não conversam. Distribuem conselhos.

 

Elas caminham pelo mundo com os bolsos cheios de soluções para problemas que não lhes pertencem. Encontram um desconhecido na fila do mercado e oferecem um remédio. Encontram uma viúva e oferecem uma filosofia. Encontram alguém doente e oferecem uma dieta.

 

Saem de casa generosas de si mesmas.

 

Outro dia encontrei uma dessas pessoas.

 

Eu estava diante de uma máquina copiadora japonesa. O aparelho parecia ter sido inventado por alguém que acreditava que a simplicidade era um defeito moral. Havia botões, luzes, caracteres indecifráveis e uma urgência crescendo dentro de mim. Eu precisava das cópias. Precisava delas logo. O hospital me esperava.

 

Foi quando ela surgiu.

 

Não surgiu como uma pessoa. Surgiu como uma opinião.

 

Perguntou como eu estava.

 

Respondi que tinha uma consulta marcada no hospital.

 

Foi o suficiente.

 

Disse que eu deveria tomar magnésio.

 

Disse que era importante desparasitar o intestino.

 

Disse que suplementos ajudavam muito.

 

Disse que eu precisava cuidar da alimentação.

 

Disse que precisava controlar o estresse.

 

Eu procurava o botão das cópias.

 

Ela procurava a causa da minha doença.

 

Curioso como certas pessoas conhecem o mapa inteiro da nossa vida depois de olhar para o nosso rosto por trinta segundos.

 

Enquanto ela falava, eu observava suas palavras caírem entre nós como panfletos lançados de um avião. Não pousavam em lugar algum. Apenas se acumulavam.

 

Há pessoas que carregam respostas como quem distribui amostras grátis.

 

Há uma solidão peculiar em ser aconselhado quando tudo o que se precisa é de silêncio.

 

Talvez ela quisesse ajudar. A maioria quer. Mas ajudar não é despejar respostas sobre alguém. Ajudar é perceber a medida da presença necessária.

 

Às vezes a ajuda é uma refeição.

 

Às vezes é um abraço.

 

Às vezes é apenas não atrapalhar uma mulher perdida diante de uma copiadora.

 

Penso que existe uma certa arrogância escondida na bondade excessivamente explicativa. Uma crença secreta de que a vida do outro aguarda nossa intervenção para finalmente funcionar.

 

Mas a vida raramente funciona assim.

 

Cada pessoa trava batalhas invisíveis. Algumas carregam exames na bolsa. Outras carregam lutos. Outras carregam medos que nem nome têm.

 

Nem toda dor precisa de conselho.

 

Nem toda angústia precisa de interpretação.

 

Nem toda pessoa precisa ser consertada.

 

Quando finalmente consegui fazer as cópias, senti culpa por ter sido seca. Depois compreendi que talvez não tivesse sido secura. Talvez fosse apenas cansaço.

 

O cansaço tem uma linguagem própria. Ele não argumenta. Não explica. Apenas fecha a porta para economizar a pouca energia que resta.

 

E, naquele dia, diante da copiadora e da pressa, eu não precisava de magnésio.

 

Precisava apenas que o mundo me deixasse passar.

Sônia Lupion Ortega Wada SOL
Enviado por Sônia Lupion Ortega Wada SOL em 15/06/2026
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