Sônia Lupion Ortega — SOL
Palavras que não gritam — mas permanecem.
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A Felicidade Mora no Fundo da Panela


Hoje eu fiz curau.


Não ficou igual ao da minha tia.

 

Aliás, demorou para engrossar. Mexi, esperei, experimentei, acrescentei um pouco de amido, continuei mexendo enquanto o calor do verão japonês transformava minha cozinha numa pequena sauna.

 

Por alguns instantes, achei que estava apenas fazendo uma sobremesa.

 

Mas não era.

 

Era uma viagem.

 

Quando o cheiro do milho começou a subir da panela, eu já não estava mais no Japão.

 

Voltei ao sítio do meu tio.


Era tempo de férias.

 

As espigas de milho se acumulavam sobre a mesa. Primeiro vinha o trabalho: descascar uma por uma, retirar os fiozinhos dourados, ralar, espremer, coar. Depois, enquanto uma panela recebia o curau, outra era preparada para as pamonhas.

 

A pamonha também exigia paciência.

 

Era preciso separar as melhores palhas, dobrá-las, enchê-las, amarrá-las com cuidado para que não abrissem durante o cozimento.

 

Tudo era demorado.

 

E ninguém reclamava.

 

Porque, na verdade, o melhor ingrediente nunca foi o milho.

 

Era a convivência.

 

As conversas.

 

As risadas.

 

As histórias contadas enquanto as mãos trabalhavam.

 

Hoje tudo parece mais rápido.

 

Compramos comida pronta.

 

Apertamos botões.

 

Esperamos poucos minutos.

 

Mas algumas receitas se recusam a ter pressa.

Talvez porque não cozinhem apenas alimentos.

 

Cozinhem lembranças.

 

Moro no Japão há tantos anos que meus filhos nunca conheceram uma tarde de pamonha.

Nunca viram uma cozinha cheia de espigas espalhadas sobre a mesa.

 

Nunca aprenderam a tirar os cabelinhos do milho.

 

Aqui, o milho fresco aparece apenas durante uma parte do verão e custa caro. Acabei me acostumando a deixar essas receitas guardadas apenas na memória.

 

Até hoje.

 

Enquanto mexia a panela, percebi que certas lembranças não envelhecem.

 

Elas apenas esperam o aroma certo para despertar.

Quando desliguei o fogo, veio a parte que eu mais esperava.

 

Abri o potinho de canela.

 

E, como faço desde menina, espalhei uma fina camada sobre o curau.

 

Naquele instante, sorri.

 

Porque percebi uma verdade daquelas que a gente leva uma vida para descobrir:

 

A canela é a cereja do curau.

 

Curau sem canela é bom.

 

Mas a magia não acontece.

 

É a canela que desperta o perfume.

 

É ela que abre a porta da memória.

 

É ela que faz a cozinha desaparecer e, de repente, me devolve ao sítio do meu tio, às férias, à minha tia mexendo a panela e à menina que eu fui.

 

Foi só então que fiz exatamente o que fazia quando era criança.

 

Peguei uma colher.

 

Raspei o fundo da panela.

 

Naquele instante, compreendi uma outra verdade.

 

A felicidade mora no fundo da panela.

 

Depois coloquei o curau na travessa.

Cobri com filme plástico.

 

Em seguida, peguei uma folha de papel A4 e escrevi, em letras enormes:

 

HANDS OFF!

 

Colei o aviso na porta da geladeira.

 

Aqui em casa, era uma medida de proteção.

 

Curau recém-feito corre sério risco de desaparecer antes mesmo de gelar.

 

Sorri.

 

Porque, no fundo, eu sabia que o primeiro a desaparecer não seria o da travessa.

 

Seria o restinho da panela.

Como sempre foi.

 

E, confesso, havia também algumas colherinhas de glicose.

 

Afinal, o diabetes não tira férias nem quando a memória resolve fazer festa.

 

Mas algumas exceções não se medem em calorias.

 

Medem-se em afeto.

 

Da próxima vez, quero fazer pamonha para minhas netas.

 

Quero ensiná-las a descascar o milho, a separar as palhas, a amarrar cada pamonha com cuidado.

 

Quero que elas sintam o perfume da canela invadindo a cozinha e descubram, como eu descobri um dia, que algumas receitas carregam muito mais do que ingredientes.

 

Carregam pessoas.

 

Carregam lugares.

 

Carregam histórias.

 

Talvez elas não se lembrem da receita.

 

Mas espero que se lembrem da cozinha.

 

Das histórias.

 

Da avó.

 

Porque cozinhar nunca foi apenas preparar comida.

 

É uma maneira silenciosa de impedir que o amor desapareça com o tempo.

 

E, se um dia alguém me perguntar onde mora a felicidade, acho que finalmente saberei responder.

 

Ela mora no perfume da canela.

 

Ela mora nas mãos que descascam o milho.

 

Ela mora nas histórias contadas enquanto a panela ferve.

 

Mas, principalmente…

 

A felicidade mora no fundo da panela.

 

E a infância também.

 

 

SOL

Sônia Lupion Ortega Wada SOL
Enviado por Sônia Lupion Ortega Wada SOL em 18/07/2026
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