A HUMANIDADE ESTÁ SENDO APRISIONADA DENTRO DE UMA TELA
Hoje é Dia do Historiador.
E foi justamente hoje que me deparei com uma notícia que me causou uma profunda tristeza.
Empresas de inteligência artificial estão comprando milhões de livros físicos para alimentar suas máquinas. Arrancam as lombadas, separam as páginas, escaneiam o conteúdo e, depois, destroem os livros.
Chamam isso de “digitalização destrutiva”.
Projeto Panama.
Confesso que fiquei aqui pensando no significado de tudo isso.
Algumas pessoas dirão:
— Mas o conteúdo foi preservado.
Preservado onde?
Dentro dos computadores de uma empresa? Nas entranhas de uma máquina? Em arquivos que não pertencem à humanidade e aos quais talvez nunca tenhamos acesso?
Um livro não é apenas aquilo que está escrito nele. Nunca foi.
O livro tem corpo. Tem cheiro. Tem textura. Tem idade. Tem cicatrizes. Guarda a marca das mãos que o tocaram, das pessoas que o leram e dos lugares por onde passou.
Uma dedicatória esquecida numa primeira página pode contar uma história. Uma frase sublinhada revela o pensamento de alguém que talvez já nem esteja neste mundo. Uma anotação na margem, uma flor seca, uma fotografia guardada entre as folhas… tudo isso também é memória.
Tudo isso também é História.
Como historiadora, não consigo olhar para um livro antigo e enxergar apenas palavras impressas. Vejo um sobrevivente do tempo.
E agora esses sobreviventes estão sendo mutilados para ensinar máquinas a escrever como seres humanos.
Não é uma terrível ironia?
Para que a inteligência artificial aprenda a pensar, escrever e contar histórias como nós, ela precisa devorar justamente aquilo que o ser humano levou séculos para criar.
A máquina preserva as palavras — e destrói o testemunho.
Estamos, pouco a pouco, aprisionando toda a nossa cultura dentro de telas.
As fotografias já não estão nos álbuns. As cartas desapareceram. A música não está mais nos discos. Os filmes não estão mais nas estantes. Os livros estão sendo transformados em arquivos. Até nossas lembranças estão guardadas em aparelhos que quebram, plataformas que desaparecem e senhas que morrem conosco.
Já não possuímos quase nada.
Temos apenas permissão para acessar.
Hoje a música está disponível. Amanhã poderá ser retirada.
Hoje o filme existe numa plataforma. Amanhã desaparecerá do catálogo.
Hoje o livro está num arquivo digital. Amanhã uma empresa poderá decidir que ele não deve mais ser visto.
E nós, que produzimos toda essa cultura, passamos a depender de uma tela para reencontrar aquilo que nós mesmos criamos.
Não sou inimiga da tecnologia. Sei que ela aproxima, facilita, recupera e, muitas vezes, preserva. Mas digitalizar deveria significar criar outra forma de acesso — nunca destruir o original.
Porque uma cópia não substitui a existência.
Talvez estejamos caminhando para uma humanidade que poderá consultar tudo, mas não poderá tocar em nada.
Saberá como eram os livros, as fotografias, as cartas e os discos, mas não sentirá o peso, a textura, o cheiro nem a energia de quem os segurou antes.
Terá a imagem perfeita de tudo — e o original de coisa alguma.
E isso me assusta.
A memória da humanidade não pode depender apenas de eletricidade, servidores e interesses comerciais. A História precisa de matéria. Precisa de vestígios. Precisa daquilo que sobreviveu ao tempo para testemunhar que estivemos aqui.
Hoje, no Dia do Historiador, penso que nossa missão não é simplesmente estudar aquilo que passou.
É impedir que o passado seja apagado diante dos nossos olhos, enquanto todos chamam isso de progresso.
Porque, depois que o último exemplar for destruído, poderemos até conservar suas palavras.
Mas jamais recuperaremos sua alma.
Sônia Lupion Ortega Wada