Sônia Lupion Ortega — SOL
Palavras que não gritam — mas permanecem.
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Depois é Depois


 

Aprendi uma frase japonesa que chegou até mim sem fazer barulho.

Estava escondida numa conversa comum, dessas que acontecem entre uma xícara de chá e o fim da tarde:

今度は今度、今は今.  Kondo wa kondo, ima wa ima.

Depois é depois. Agora é agora.

Guardei as palavras no bolso da memória e segui meu caminho.

Dias depois, elas voltaram.

Foi numa manhã em que eu regava as plantas da varanda. Enquanto a água escorria pela terra escura, percebi que eu não estava ali. Meu corpo segurava o regador, mas meus pensamentos já tinham viajado para a próxima semana, para compromissos que ainda não existiam, 

para respostas a perguntas que ainda nem haviam sido feitas.

As flores, porém, estavam no presente.

A água estava no presente.

O sol pousado sobre as folhas estava no presente.

Só eu tinha me ausentado.

Talvez seja por isso que os jardins sejam tão sábios.

Nenhuma flor apressa a próxima estação. Nenhum botão passa a madrugada preocupado com a chuva de amanhã. Eles apenas florescem quando chega a hora.

Depois é depois.

Agora é agora.

Naquele dia, passei a observar quantas vezes abandonamos o instante em que estamos vivendo.

Enquanto tomamos café, pensamos no almoço.

Durante o almoço, pensamos no trabalho.

No trabalho, pensamos no fim de semana.

E quando o fim de semana finalmente chega, já estamos preocupados com a segunda-feira.

Vivemos atravessando pontes antes mesmo de alcançar o rio.

O curioso é que a vida parece preferir os momentos pequenos.

Ela gosta do cheiro do arroz recém-cozido.

Do gato dormindo numa faixa de sol.

Do vento que entra pela janela sem pedir licença.

Do som distante da chuva sobre os telhados.

A vida acontece quase sempre em silêncio, enquanto estamos ocupados planejando o próximo capítulo.

Naquela tarde, voltei a repetir a frase japonesa como quem recita um segredo antigo.

今度は今度、今は今.

E por alguns instantes, apenas por alguns instantes, consegui ficar exatamente onde estava.

Nem ontem.

Nem amanhã.

Ali.

E descobri que o agora, quando finalmente o encontramos, costuma ser muito mais bonito do que imaginávamos.

Sônia Lupion Ortega Wada SOL
Enviado por Sônia Lupion Ortega Wada SOL em 17/09/2026
Alterado em 25/09/2026
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