Depois é Depois
Aprendi uma frase japonesa que chegou até mim sem fazer barulho.
Estava escondida numa conversa comum, dessas que acontecem entre uma xícara de chá e o fim da tarde:
今度は今度、今は今. Kondo wa kondo, ima wa ima.
Depois é depois. Agora é agora.
Guardei as palavras no bolso da memória e segui meu caminho.
Dias depois, elas voltaram.
Foi numa manhã em que eu regava as plantas da varanda. Enquanto a água escorria pela terra escura, percebi que eu não estava ali. Meu corpo segurava o regador, mas meus pensamentos já tinham viajado para a próxima semana, para compromissos que ainda não existiam,
para respostas a perguntas que ainda nem haviam sido feitas.
As flores, porém, estavam no presente.
A água estava no presente.
O sol pousado sobre as folhas estava no presente.
Só eu tinha me ausentado.
Talvez seja por isso que os jardins sejam tão sábios.
Nenhuma flor apressa a próxima estação. Nenhum botão passa a madrugada preocupado com a chuva de amanhã. Eles apenas florescem quando chega a hora.
Depois é depois.
Agora é agora.
Naquele dia, passei a observar quantas vezes abandonamos o instante em que estamos vivendo.
Enquanto tomamos café, pensamos no almoço.
Durante o almoço, pensamos no trabalho.
No trabalho, pensamos no fim de semana.
E quando o fim de semana finalmente chega, já estamos preocupados com a segunda-feira.
Vivemos atravessando pontes antes mesmo de alcançar o rio.
O curioso é que a vida parece preferir os momentos pequenos.
Ela gosta do cheiro do arroz recém-cozido.
Do gato dormindo numa faixa de sol.
Do vento que entra pela janela sem pedir licença.
Do som distante da chuva sobre os telhados.
A vida acontece quase sempre em silêncio, enquanto estamos ocupados planejando o próximo capítulo.
Naquela tarde, voltei a repetir a frase japonesa como quem recita um segredo antigo.
今度は今度、今は今.
E por alguns instantes, apenas por alguns instantes, consegui ficar exatamente onde estava.
Nem ontem.
Nem amanhã.
Ali.
E descobri que o agora, quando finalmente o encontramos, costuma ser muito mais bonito do que imaginávamos.