A memória não se exila
Nasci em 1964. Naquele ano, enquanto eu chegava à vida, o Brasil começava a perder a liberdade. Eu ainda não sabia das portas fechadas, das vozes sufocadas, das ausências que tantas famílias aprenderiam a carregar.
Muito jovem, estudante universitária em Maringá, no Paraná, fiz parte do movimento estudantil, ligado à UNE.
Participei das Diretas Já. Minha juventude encontrou a história nas ruas, entre vozes que desejavam devolver ao povo o direito de escolher.
Vi a democracia brasileira renascer. E há uma diferença entre conhecer esse momento pelos livros e ter levado para ele a própria esperança.
Depois, como historiadora, aprofundei o conhecimento sobre aqueles anos. Li sobre a perseguição, a censura, as prisões, os desaparecimentos. Sobre a tortura, o pau de arara, a crueldade transformada em instrumento de poder. Por trás de cada registro havia uma pessoa. Um corpo que sentia dor. Uma família que esperava. Uma vida interrompida ou obrigada a continuar com feridas que ninguém via.
Não vivi pessoalmente todas essas dores. Mas aprendi que a memória também nos torna responsáveis pelo sofrimento que não foi nosso.
Moro no Japão há muitos anos. Sei que a distância limita meu olhar sobre o cotidiano brasileiro. Há dificuldades que não enfrento, mudanças que acompanho de longe. Ainda assim, atravessar um oceano não apaga minha história nem desfaz meu vínculo com o país onde nasci.
A memória não se exila.
A democracia brasileira tem falhas, promessas por cumprir e injustiças que persistem. Precisa ser cobrada, cuidada, aprofundada. É nela que podemos discordar, denunciar, exigir mudanças e escolher outros caminhos.
Nenhuma saudade de uma suposta ordem pode tornar aceitável o silêncio imposto pelo medo. Nenhuma promessa de salvação justifica entregar a liberdade.
Quando ouço alguém desejar a volta da ditadura, penso nas páginas que li e nas pessoas que não puderam contar a própria história. Penso também naquela jovem que fui, levando sua esperança às Diretas Já.
Ainda reconheço sua voz dentro de mim.
Hoje, de tão longe, continuo desejando que o Brasil encontre caminhos melhores. E continuo defendendo aquilo que minha juventude ajudou a reclamar: o direito de um povo decidir seu destino.
A ditadura jamais deve voltar ao Brasil.
Que a liberdade conquistada não se torne apenas uma lembrança que os mais velhos tentam explicar aos filhos.
Imagem: reprodução do site Plano Crítico.