Sônia Lupion Ortega — SOL
Palavras que não gritam — mas permanecem.
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Santo Antônio, eu quero a troca!

 

Dizem que Santo Antônio é casamenteiro.

 

Mas ninguém me avisou que o santo não oferecia garantia, assistência técnica ou direito à devolução.

 

Eu era adolescente, bonita, apaixonada e dona daquela deliciosa ignorância sentimental que nos faz acreditar que o amor é uma questão de vontade. Se a pessoa não se apaixona, falta apenas encontrar a simpatia certa.

 

E eu encontrei!

 

Alguém me ensinou uma receita infalível para conquistar o homem desejado.

 

Precisava escrever o nome dele num papel, amarrá-lo ao corpo de Santo Antônio, enrolar a imagem com linhas até cobri-la inteirinha e, finalmente, colocar o pobre santo de cabeça para baixo dentro do álcool.

 

A condição era clara: só seria libertado quando o pretendente estivesse completamente apaixonado.

 

Não sei quem inventou tamanha barbaridade, mas a adolescente que eu era executou o procedimento com dedicação científica.

 

Escrevi o nome de JP.

 

Amarrei.

 

Enrolei.

 

Enrolei mais.

 

Tanta linha que Santo Antônio desapareceu! Não se via a cabeça, o corpo, nem a menor possibilidade de fuga.

 

Depois mergulhei o coitado no álcool, de cabeça para baixo.

 

— Pronto, meu santo! Agora é com o senhor. Só sai daí quando me trouxer JP!

 

Hoje imagino Santo Antônio, indignado:

 

— Minha filha, eu sou casamenteiro, não sou sequestrador de sentimentos!

 

Mas não houve negociação.

 

E não é que JP apareceu?

 

Apareceu, apaixonou-se e, pelo visto, resolveu levar a encomenda tão a sério que esqueceu de consultar o prazo de validade.

 

No começo, achei maravilhoso.

 

JP era alegre, extrovertido, conquistador. Tinha amigos por toda parte, conversa fácil e um sorriso capaz de desarmar qualquer desconfiança.

 

Eu gostava dele.

 

Havia química, atração, borboletas no estômago e todas aquelas perturbações hormonais que a juventude insiste em chamar de amor eterno.

 

Mas JP tinha lá suas extravagâncias. E eu, com meus arroubos de menina apaixonada, ainda não sabia distinguir muito bem uma demonstração de afeto de uma grande maluquice.

 

Certa noite, combinamos de ir a uma festa na casa de amigos.

 

Naquela época, a juventude se reunia para dançar, ouvir música, conversar e aproveitar a vida. Eu e uma amiga fomos à festa.

 

JP não apareceu.

 

Esperamos.

 

Nada.

 

Então seguimos a programação. Dançamos, nos divertimos e depois fomos conhecer os barzinhos da noite.

 

Afinal, eu tinha juventude de sobra e não pretendia desperdiçá-la esperando por um homem que não cumpria compromissos.

 

Mas JP resolveu aparecer na minha casa mais tarde.

 

Não me encontrou.

 

E ficou furioso!

 

O que faria um homem razoável nessa situação?

 

Voltaria para casa, talvez telefonasse no dia seguinte, pediria desculpas por ter faltado ao encontro.

 

Mas JP não era homem de soluções convencionais.

 

Resolveu empreender uma operação noturna.

 

A pé!

 

Caminhou até um supermercado, a algumas quadras de distância, comprou um pacote de um quilo de farinha de trigo e voltou caminhando até minha casa.

 

Chegando lá, espalhou a farinha pela entrada, pelo portão, pela escada, pela varanda…

 

Uma verdadeira nevasca tropical!

 

Imagino a vizinhança acordando e pensando:

 

— Nossa! Nevou em Maringá?

 

Ou talvez:

 

— Será que inauguraram uma padaria aqui durante a madrugada?

 

Depois de executar sua obra de arte culinária, JP foi embora.

 

A pé, novamente!

 

Segundo ele, levou cerca de três horas para chegar à própria casa.

 

TRÊS HORAS!

 

E tudo isso porque não me encontrou em casa, depois de ele próprio ter faltado ao nosso encontro!

 

Na manhã seguinte, deparei-me com aquela paisagem esbranquiçada.

 

Farinha por toda parte!

 

Ninguém sabia quem havia feito aquilo.

 

Algum tempo depois, JP confessou o crime farináceo.

 

Disse que tinha ficado com raiva porque não me encontrara.

 

Eu comecei a rir.

 

Ri muito!

 

E pensei:

 

— Meu Deus, valeu a pena tanto sacrifício?

 

Confesso que, naquela idade, até valorizava essas extravagâncias. Achava que um homem capaz de caminhar tantos quilômetros por mim devia gostar muito de mim.

 

Hoje penso diferente.

 

E, quando me lembro daquela simpatia, imagino Santo Antônio finalmente libertado das linhas, recuperado do banho de álcool e tentando descansar de sua missão.

 

Eu apareço novamente, com uma reclamação:

 

— Santo Antônio, eu quero a troca!

 

O santo, desconfiado:

 

— Outra vez, minha filha? Mas não foi esse que você pediu?

 

— Foi, meu santo! Mas houve um engano na encomenda. Eu pedi um homem apaixonado, não um fornecedor de farinha!

 

Imagino o coitado erguendo os olhos aos céus:

 

— Da próxima vez, minha filha, faça o favor de ler as condições do pedido!

 

Amor não se mede pela distância percorrida, muito menos pela quantidade de farinha desperdiçada.

 

Se fosse assim, os padeiros seriam os maiores românticos da humanidade!

 

SOL

 

⸻

 

Crônica inspirada em acontecimentos da juventude. Identidades preservadas por meio de personagens literários.

Sônia Lupion Ortega Wada SOL
Enviado por Sônia Lupion Ortega Wada SOL em 31/10/2026
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